Bilhete para Luísa

Bom, aqui já está tudo pronto pra quando você chegar. A casa é bem simples, mas meio espalhada. Coisas de papai, sabe? Aquela história de querer todos os filhos morando com ele depois de velho. Acabou que a casa ficou com cinco quartos – já preparei um pra você – quatro banheiros, e mais uma meia dúzia de salas que servem sabe-se lá pra que. E olha, embora as coisas não combinem muito entre si, tudo parece ter uma certa lógica. Como se fosse uma casinha de boneca ou essas lojinhas de luxo, onde a gente compra aqueles presentes mais sofisticados nessa época do ano.
O lado de fora é mais divertido. O jardim é bem amplo e no meu último recenseamento contabilizei 13 árvores: uma pitangueira mal-humorada; uma cerejeira do sul – dessas que só começa a produzir depois do 13º ano, e já estamos no 12º, imaginou a expectativa?; um manacá-de-jardim – muito lindo com aquelas florzinhas brancas e lilases; um pé de butiá – que este ano bateu seu recorde com oito espigas de frutas, uma delícia, pena que está muito próximo do muro, então a meninada acaba comendo os butiás verdes ainda, vai entender; uma árvore dos medalhões-de-ouro; dois ipês-amarelos – um deles deu a primeira florada esse ano; uma extremosa – que você também pode chamar de rosedá ou papai-noel, e dá aquelas flores rosas perto do Natal com aquelas bolinhas tão boas de estourar; um pé de caqui – que produz pouco; um figueiro – que produz muito; uma buganville rosa – que forma um arco sobre a entrada do carro na garagem; uma espinheira santa – que não é bem uma árvore, mas está a caminho; e mais a parreira do tio.
Mas você tem que ver o passaredo. De manhã cedo já dá pra ouvir os pardais e as garrinchas que moram nos beirais do telhado. Lá pelas cinco da manhã começa a cantoria que vai até as nove. Quando tem filhotes então, o negócio vai longe. Tem um sapo que aparece todo mês no pomar e mais os gatos da vizinhança. Colibris nos visitam casualmente. São animaizinhos meio estressados esses. E quando o figueiro dá frutos aparece uma sorte de pássaros que só Deus pra classificar um a um. A gente acaba deixando uns figos no pé só pra ver a alegria da passarada. Tem um que acho que é o tico-tico, aquele da historinha que papai contava quando éramos criança, lembra?
A rua também é tranqüila. Poucos carros, algumas bicicletas e um punhado de andarilhos que vez ou outra batem aqui pra papearmos sobre a vida e os caminhos do mundo. Sem falar daquela dupla de mórmons. Boa gente até, os dois. Tenho uma pena deles nesse sol do verão. Acho que você vai estranhar um pouco o calor também, mas já se acostuma. Qualquer coisa tomamos banho de mangueira pra lembrar os velhos tempos. Tá bom, essa última frase ficou meio clichê saudosista. É que não agüentei.
Bom, de resto é isso. Acho que você vai gostar da casa. Tente chegar mais cedo que te apresento pra toda a vizinhança. Dona Noca, seu Tomás e a Gertrudes, aquela destrambelhada que mora duas casas depois do mercadinho. Te espero a partir das três com bolinhos-de-chuva e com o violão na varanda. Já até ensaiei algumas músicas pra cantarmos juntos.
Vem logo que estou morrendo de saudades do teu beijo.
F.

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