Os chatos de Cabul

Tudo bem, a literatura vive de modismos. Deve ser a tal de Indústria Cultural. Ela chegou de mansinho, sem avisar e, plaf, tomou conta de nossos livros. Aliás, é até melhor falar logo no “mercado literário” para estar em dia com os conceitos consumistas deste início de milênio e não posar de antiquado.

Mas enfim, a literatura vive de modas, como quase tudo nesse capitalismo nosso de cada dia. Vamos aceitar logo que dói menos. Começou lá nos anos 80, com o Og Mandino. Alguém aí­ lembra dele? Este sorridente senhor da contracapa escreveu “O maior vendedor do mundo”, seguindo depois para “O maior presente do mundo”, “O maior segredo do mundo”, e por aí­ a fora, fazendo uma lista de livros com “maiores do mundo” de dar inveja ao Guiness. E vendeu milhões. Estava iniciada a brincadeira. O mesmo fenômeno de vendas – ou de picaretagem editorial – aconteceu com a Operação Cavalo de Tróia e seus correlatos relinchantes. Repetiu-se em O Senhor dos Anéis, e também vendeu muito com a Inteligência Emocional e seus complementos e análises literárias.

Não vou nem falar da Profecia Celestina. Pula. Recentemente, tivemos o Código da Vinci. E não foi diferente. Depois do livro, os penduricalhos. Decifre o Código, Entenda o Código, Decodifique o Código. Edição ilustrada, comentada, encadernada. É mentira, é tudo verdade. Teve gente até mudando de religião por conta do livro. Discussões intermináveis. Haja paciência e papel.

Mas já que estamos falando de moda, atualmente para você ser in tem que entender de Cabul. Sim, Cabul. Essa cidade incompreendida. Peraí­, Cabul? É, Cabul, a capital do Afeganistão, 3 mil anos de história, mais de 3 milhões de habitantes, 1500 metros acima do ní­vel do mar. As editoras não estão nem aí para esses dados talibânicos, mas já lançaram O Livreiro de Cabul, As Mulheres de Cabul, As Andorinhas de Cabul, Cabul no Inverno…Cabul, Cabul, Cabul! De repente, Cabul virou fashion! Você vai na livraria mais próxima de sua casa e Cabul tem uma vitrine só pra ela. É Cabul pra todo lado. É Cabul que nao acaba mais!

Tudo bem, Afeganistão tem um ar assim meio intelectual. É como dizer “mas eu curto mesmo é cinema iraniano, saca? A fotografia, os diálogos lentos e arrastados, a trilha incidental”. Filme iraniano é cult. Cult e chato. Mas fica ali, 50 por cento. E o Afeganistão também entra na roda. Olha Cabul aí­, gente! Pudera, toda aquela opressão. Décadas sob o jugo soviético, depois o Talibã, guerras e mais guerras. É natural que o mundo inteiro tenha curiosidade em saber o que se passava naquele canto de continente tão fechado. Quantos escritores reprimidos e seus livros fantásticos, prontos a serem apresentados ao mundo. Meu Deus, e as mulheres? O que pensam as pobrezinhas por detrás daquelas burcas?

Cabul virou um grande filão e ainda vai vender muito. A cidade terá seus dois, talvez três anos de fama na literatura. Depois volta a ser uma entre muitas. O que a cidade ganha com isso? Talvez incremente o turismo local. Talvez. Dinheiro que é bom, nada. Vão continuar todos no miserê. As mulheres, as andorinhas, e – olha só que ironia – até mesmo o livreiro de Cabul! Logo, os americanos resolvem invadir outro país, e o imperialismo literário muda sua geografia.

Bonito vai ser no dia que o governo totalitário americano derrubar o governo totalitário na Coréia do Norte. Vai ser uma enxurrada literária sem precedentes. Vão desenterrar escritores do túmulo em nome das vendas e do lucro da indústria editorial. Só que aí­ os norte-coreanos se vingam do ocidente: quero ver eles colocarem Pionguiangue no título. Pobres andorinhas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.