Fiúza Lima, o incompreendido

 Itajaí tem um bairro chamado Fiúza Lima, que vem desaparecendo ao longo dos anos, sendo omitido aos poucos dos mapas e plantas urbanas da cidade. O Fiúza fica ali, espremido entre a Vila Operária, o São João e o São Judas, meio encabulado, mas cheio de orgulho. Tem quase tudo o que um bairro simpático precisa ter. Uma pracinha, um campinho de futebol agregado a um salão de festas de um clube recreativo, uma rua com seu nome e uma feirinha cheia de charme, que movimenta a vizinhança todo o sábado assim que nasce o dia. Quase um Saint-Germain-des-Prés local.Lembro do Fiúza de minha meninice, lá nos idos da década de 80. Morávamos na rua Rio do Sul, o que nos conferia o direito de escolher se éramos do Fiúza ou do São Judas. Era assim com todas as transversais entre a rua Fiúza Lima e a Indaial. Você escolhia. Lá em casa escolhemos ser do Fiúza. Lembro da padaria Continental, da sinuca no boteco do Pinto e dos Flamboyants rubros em flor nas primaveras do bairro.

No filminho da vida da gente vão aparecendo os paralelepípedos, as academias de ginástica, a inscrição “Grêmio Esportivo Fiúza Lima – fundado em 16/08/1948”. Lembro também de minha estréia no campinho defendendo as cores do glorioso Fiúza: um uniforme azul claro, vermelho e branco, feio de doer, mas significativo para um moleque de 10 anos.

O Fiúza sempre foi assim: um divisor de águas entre uma Vila Operária classe média e um São Judas mais popular. Era comum – dentro dessa besteira que é a obtenção de um status social baseado no espaço urbano – alguém do Fiúza querer ser da Vila, ou alguém do São Judas querer ser do Fiúza, sempre tomando por critério positivo a maior proximidade com o centro da cidade. Já o São João não entrava na discussão.

“O São João é depois da Heitor Liberato”, logo dizia qualquer morador mais atento, fazendo questão de demarcar a posição. Coisas da nossa gente. Se formos tomar como elemento de agregação de um bairro as capelas e seus respectivos padroeiros, como se isso fosse algo a ser levado em conta nesses dias de tão pouca religiosidade, o Fiúza Lima também fica ali, dividido. É claro, com uma ligeira vantagem para a Capela Nossa Senhora da Paz, em detrimento à capela de São Judas Tadeu, apenas por razões de proximidade métrica.

A rua Fiúza Lima não chega a ter 800 metros e junto com o campinho acaba sendo uma das maiores referências para essa identidade local da comunidade. Na divisão territorial de Itajaí a placa que identifica a rua não deixa dúvidas: “Rua Fiúza Lima – Vila Operária”. Mas mesmo sem aparecer como bairro nos novos mapas da cidade, o Fiúza ainda resiste nas manchetes quando a imprensa divulga “Fiúza Lima recebe o Peixe nos Bairros neste sábado” ou ainda “Feira do Fiúza Lima será reestruturada”. É difícil mesmo romper de uma hora pra outra um elemento de orgulho cultural e comunitário tão arraigado na vida das pessoas.

Desta forma o bairro Fiúza Lima continuará existindo: nas calçadas esburacadas, nas peladas de fim de tarde no campinho de grama rala, nos namoricos da praça, no movimento e no barulho da feirinha. Não há lei ou plano que retire isso da idéia das pessoas. Mesmo que não se aceite, lá no fundo do imaginário de cada morador estará sempre a idéia de que, mais do que um bairro, o Fiúza Lima é um estado de espírito.

0 Replies to “Fiúza Lima, o incompreendido”

  1. Kelvin

    veio, moro em itajai desde que nasci e nunca vi esse bairro…
    🙂

  2. Boa noite, sou morador do Fiuza Lima, nascido e criado na Rua: Gaspar 36 bem enfrente a pracinha, muito legal o seu texto, gostaria de informar a vc que este ano de 2010, o G.E. Fiuza Lima vai desputar o campeonato amador, aparessa será muito legal para nós da diretoria, ter pessoas como vc próximo do clube.
    Um abraço
    Cristiano de Souza.

  3. Simone

    Oi estive a uns anos em Itajai gostaria de saber em homenagem a quem foi colocado o nome do bairro FIUZA LIMA, pois na realidade e meu nome de familia

    obrigada

    Simone Fiuza Lima

    1. ANTONIO CARLOS FIUZA LIMA

      Simone, depois de muitso anos da publicação lhe informo que este bairro foi criado pelo meu avô JUVENAL FIUZA LIMA, onde também edificou o Asilo Dom Bosco, onde encontra o nome dele.

      1. Leonardo da Silva Fiuza Pina

        Juvenal Fiuza Lima é meu bisavô!

    2. Ola, gostaria de manter contato com Antonio Carlos Fiuza Lima, referente Árvore Genealógica de Juvenal Fiuza Lima, por favor. Obrigado

  4. valdecir florencio veiga

    joguei futebol no fiuza lima na decada de 60,e ate hoje tenho muitas saudades deste bairro onde passei minha juventude,onde tenho grandes amigos,hoje moro em Sao Paulo mas meu coraçao esta no bairro Fiuza Lima. siça—– obrigado.

  5. Tony Fiuza Lima

    Meu amigo parabéns pela iniciativa. Bairro Fiuza Lima foi fundado pelo meu avó Juvenal fiuza Lima, que entre outras coisas ajudou a fundar o Asilo Dom Bosco. Um abraço a todos que moram no Fiuza Lima .

  6. TATIANE DA SILVA COSTA

    TENHO ORGULHO E DIGO A TODOS QUE MORO NA RUA FIUZA, E POR SINAL, FILHA DO DONO DA ANTIGA PADARIA CONTINENTAL….

  7. Flavio

    Na verdade o Fiuza Lima é um loteamento pertencente ao bairro Vila Operária que foi implantado na década de 1930 através de terras adquiridas pelo gaúcho Juvenal Fiuza Lima.

  8. Waldyr Rocha

    Muito bacana, eu morei parte a minha infância, quando me mudei para Santa Catarina, na rua Wandelino Winter, a conta da água “dizia São Judas” a da Luz “Fiúza Lima” e a certeza jamais existiu. Muito bom o texto, me fez recordar a ideia da gurizada da rua querendo formar um time de futsal com o nome do bairro, e recordo de um livro que li na infância, enquanto ainda mora por ali, não recordo o autor, mas o livro era intitulado “A vingança do Timão”. (Nenhuma referência ao Corinthians)

  9. Oi, por favor, gostaria de manter contato com Simone Fiuza Lima, referente Árvore Genealógica dos Fiuza, obrigado!

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