Pequeno apanhado sobre a vida de certos homens de bem

Diógenes acreditava em tudo: pasta de enguia da Amazônia, em mau-olhado, em praga de madrinha, em dinheiro fácil. Acreditava até em Deus.

Rogério casou uma vez, casou duas, casou três. Achou que três mulheres não podiam estar erradas. E não casou mais.

Dulcídio andava pela rua de madrugada até o dia em que achou um algodão caído na forma de dois pequenos pulmões. Achou aquilo a coisa mais linda.

Otávio jogava na loteria toda semana. Uma vez ganhou 100 contos. “Ganhar 100 contos é só pra desperdiçar a sorte no amor”, pensou.

Genésio gostava de enterros. Tinha aquela curiosidade mórbida e aquele desejo macabro em comparar a dor alheia. Até hoje não esquece aquele velório onde serviram polenta com leite.

Armínio ia à missa sempre aos domingos pela manhã. Um dia, no silêncio que precede à consagração, foi surgindo uma vontade incontrolável de dar um berro. Foi assim que ele matou o padre de susto.

Basílio foi o artilheiro da escola. Era o capitão do time da rua de baixo. Todos diziam “esse vai ser dos bons”. Aos 22 anos de formou em Geologia e teve uma carreira acadêmica de sucesso.

Laércio sempre teve uma queda por Regina. Foi assim durante todo o colegial. Depois ela foi pra Porto Alegre. Ele passou a escrever poemas de qualidade duvidosa. Nunca foi publicado.

Valério pegou o dinheiro de seu primeiro salário no guichê número 07 da agência que ficava na Rua do Comércio. Comprou um relógio, uma bala de goma e uma corda para o violão.

Otacílio um dia achou que o bom mesmo era dar a volta ao mundo embarcado em um navio estrangeiro. No outro dia achou melhor ter um sitiozinho e viver sossegado longe da cidade. No outro pensou em ir pra um mosteiro. No outro em ser um astro de roquenrol. Enquanto isso, o tempo passou.

 

0 Replies to “Pequeno apanhado sobre a vida de certos homens de bem”

  1. Marjorie Bier

    Teu texto trouxe-me Chico à mente:
    “Tem dias que a gente se sente
    Como quem partiu ou morreu
    A gente estancou de repente
    Ou foi o mundo então que cresceu
    A gente quer ter voz ativa
    No nosso destino mandar
    Mas eis que chega a roda-viva
    E carrega o destino pra lá
    Roda mundo, roda-gigante
    Roda-moinho, roda pião
    O tempo rodou num instante
    Nas voltas do meu coração”

    Adoro a maneira como escreves…

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