Poema para uma mulher que ainda não amei

 

novecentos e cinqüenta

é o que me separa

da tua mão estendida

do teu rosto dormido de aurora

do teu eterno

gosto

de anis e despedida

são quilômetros que faço

chamando pelo teu nome

falo palavras sujas

grito

clamo

quero comigo

a multidão

pelas ruas da cidade estática

chamo

e ninguém me ouve

os homens estão na barbearia

as crianças assistem passar o dia

e algumas poucas mulheres estão assombradas

pois descobriram

a matemática secreta das coisas

chamo sozinho os sós do mundo

chamo a sós os sós do mundo

chamo só os sóis do mundo

milhões de estrelas passageiras

brancas, amarelas, vermelhas

para esta viagem que faço

a pé

a cavalo

de trem

de carro

de balsa

de teimoso

de louco que sou

de cansaço

em cada cidade

em cada trecho de chão

te respiro mais próxima

te sinto

faço por ti

minha particular

jornada

revolvo

revido

paro e reflito

convido a todos

incompletos de certidão

para tomarem parte

dessa encruzilhada

de tempo

baile

balão

catavento

lápis-de-cor

espuma do mar

as vésperas de um sábado de finados

castelo de areia

creme belga

biblioteca

poente

dança

inútil

inútil é meu andar

se foges como uma lembrança

se marchas calada

durante a noite

em que te sonho

se bates em retirada

de longe pareces mais bela

de longe espreitas meu gosto azedo

minha angústia

a descrença dos meus dias

sabes que a distância me torna inofensivo

mas o que será

do tempo

das coisas

de nós

quando estiveres aqui comigo

hesita

arrepende

nega

desdiz

quando sente que o teu sim

encurta a minha estrada

em centenas de alvoradas

volta atrás

interrompe minha tenra jornada

pede pra esquecer

se faz de tonta

ou bêbada

ou louca

ou sei lá

diz que sou mais um

mas não entende que é só isso que quero

que é essa a vocação do homem que caminha para te encontrar

por novecentos e cinqüenta quilômetros de terra e sombra e mar e vendaval

não quer ser grande

não quer ser inesquecível

não quer ser eterno

não quer ser único

mas você insiste em sonhar com o melhor dos homens

quando às duas da manhã

só resta um acordado em tua lista

te perco

ao poucos

em muitos

novecentos

quilômetros

a distância escreve o mais ácido dos poemas

mas é apenas um texto

é apenas um texto

 

e nele escrevemos

juntos

descrentes naquilo que em nós

nem existe ou sonha existir um dia

nenhum sentimento que não curiosidade

escrevemos que o futuro está lá:

no velho carro

na velha festa

no velho gosto

na velha mania

no velho velho que me olha e lamenta pelos meus vinte e nove anos de agonia

eu também lamento

como é triste o mundo

como é triste a distância

como é triste a poesia.

 

0 Replies to “Poema para uma mulher que ainda não amei”

  1. Marjorie Bier

    Como sempre, lindo!
    A poesia sempre é real pra quem sente…

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