Telefonema

Eu sei. O telefone vai tocar. Será você. Mais uma vez. Dizendo pra voltar. Que as coisas não estão bem. Dizendo que sente minha falta. Que os amigos perguntam por mim. Insistindo que deve haver um jeito. Que agora será diferente. Que foi tudo um erro. Que você não agüenta mais viver só. Que deve haver ao menos uma chance. Pra tudo. Pra você.

O telefone vai tocar e eu sei, você vai chorar. Como chorou quando te dei flores naquele dia. E depois pedi pra você ir embora. Ir para longe. Dar um tempo. Você vai chorar, como sempre. E eu vou ficar mudo, ausente de mim. Calado diante dos teus soluços. Eu nunca soube lidar com teus soluços. E já escuto teus soluços mesmo antes do telefone tocar.

Você contará uma história. Perguntará da vida. Dos amigos, das pessoas. Você terá uma curiosidade instantânea e breve sobre cada uma das minhas coisas. O violão. A faculdade. Os quadros novos da sala que você deixou vazia. O telhado a consertar. A viagem ao exterior. Meus textos. A minha pressão arterial. Você vai insistir em saber se minha pressão arterial está controlada. Você vai insistir em se mostrar preocupada. Perguntará do trabalho. Da política. Vai querer saber se continuo sendo aquele mesmo comunista que eu era. E você vai descobrir que eu continuo sendo o mesmo. Vai querer saber se ando fazendo algo de diferente. Yoga. Teatro. Parapente. Dança de Salão. Alguma nova terapia. Mas você vai ficar sabendo que pouca coisa mudou.

Eu sei. O telefone irá tocar. E você não vai conseguir ver minha cara de pena e tédio do outro lado. Não verá meus dedos enrolando impacientemente o fio do telefone enquanto escuto silencioso mais uma de tuas versões para tudo o que aconteceu. Você não vai sentir meu desinteresse monossilábico. Serei ainda assim educado e amável contigo. Vou até esboçar algum interesse. Ganhar fôlego. Enquanto finjo que sou só mais um amigo. Enquanto digo que é bom saber de ti. Que é bom ter notícias tuas e dos teus. Que é importante preservarmos a amizade que ficou entre as famílias.

O telefone irá tocar. E pensarei duas vezes antes de atendê-lo. Com a mão suspensa sobre o aparelho. Sozinho na sala lilás. E eu saberei que é você do outro lado.

Você fará perguntas e mais perguntas. Tentará tirar de mim qualquer novidade. Qualquer coisa, qualquer nome de mulher. Você vai querer saber se tem alguém em minha vida. Se tem alguém em seu lugar na minha cama. Quem é. O que faz. Onde a conheci. Você vai querer saber se ela é melhor que você. Se ao menos consegue me acompanhar nas viagens, tanto as geográficas quanto as filosóficas. Você perguntará para mim porque não tem mais coragem de perguntar aos outros.

Quando o telefone tocar, você não suportará a dor de saber que, mesmo sem você e sem ninguém, eu sou feliz.

 

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