Das qualidades de um revolucionário

Hermogêneo Dias Messa era mais um no contingente que servia no Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, quando largou das lidas diárias em favor do glorioso exército brasileiro para seguir Luís Carlos Prestes na maior marcha revolucionária da história do ocidente.

 

Ao recordar os tempos da Coluna Vermelha, que percorreu mais de 25 mil quilômetros sem nunca ter sido derrotada, Messa deixa escapar um testemunho sobre o cavaleiro da esperança que reúne em poucas e singelas palavras uma daquelas que talvez seja a principal qualidade de um revolucionário.

 

“Segui o Prestes porque madeira a gente conhece pela casca, não precisa cortar pra ver o conteúdo. Ao seu lado, ninguém ficava inseguro…” A flagrante e cega obediência, o idealismo sem medidas e a fé no horizonte revolucionário demonstram porque a história se forja com idéias e sonhos e não com fórmulas matemáticas.

 

O estalão e o critério são ferramentas típicas da academia, onde muito se debate, outro tanto se especifica, compartimentaliza-se ao extremo, mas pouco se avança. O progresso do conhecimento e a abertura de novas perspectivas para a solução de velhos problemas são passos dados com cautela pelos príncipes da ciência. A academia busca de maneira criteriosa suas verdades, mas não as edifica. Quanto mais a academia discute, aborda e questiona, menos agrega.

 

Já o ideal revolucionário caminha para o lado oposto. Primeiro a certeza, ainda que incerta, depois a justificativa. Sem precisar recorrer ao modelo de Maquivel de justificação dos meios, é claro, que aqui nem está em discussão.

 

O mundo se transforma por conta dos desejos dos homens, e não da sua cândida e neutra vontade de conhecer a verdade. Muito da selvageria ainda nos habita. E na morada da civilização ocidental o desejo ainda se sobrepõe à razão.

 

Contam que Prestes recrutava seus homens tal qual Jesus pescava discípulos no Mar da Galiléia. Não havia muita discussão ou convencimento de base lógica. Havia apenas uma vontade e um sonho. Ao contrário de todos os prognósticos racionais, as pessoas se colocavam prontamente em marcha. Não havia dúvidas, incertezas ou insegurança. Prestes chamava e as pessoas o seguiam sem questionamentos.

 

Ao contrário da academia, onde se comprova para avançar, na vida de um revolucionário se transgride para depois se conhecer o objeto. Assim um revolucionário faz história. Assim aprendemos como avançar. Com transgressão, sonho e ideal. Um revolucionário faz história porque, ao invés de viver dentro dos moldes e das estruturas econômicas, morais e sociais vigentes, tem a coragem de ir além de todas elas.

®Felipe Damo

 

0 Replies to “Das qualidades de um revolucionário”

  1. Well…
    Ou tu estás em crise (passageira, maybe…) com o gesso que “estrutura” a academia, ou descobriu, num relance, que além de gaúcho, tu és missioneiro, da boa cepa guarani!
    De qualquer forma, uma consideração ao teu “desafogo”: conheci, há cerca de uma década, Luís Carlos Prestes Filho, que veio às Missões para iniciar uma reportagem que saiu na (Manchete?), refazendo o percurso do pai…
    A entrevista rolou num banco da praça da Catedral, numa tarde mormacenta, e o olhar do cara – criado na Rússia, “discípulo” de Tarkovski e idealizador do Memorial que aqui repousa, hoje – me suscitou a mesma impressão que tu identificaste no “seu” Hermogêneo.
    Coisas de genética revolucionária?
    Não sei…
    Mas posso te garantir que, de tempos em tempos, o vento que sopra aqui se torna imemorial, e a roda parece pronta a girar, novamente…

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