Cadê a minha ziquinha?

Se existe um termo autenticamente identificado com Itajaí e sua gente este termo é “zica”. O apelido peixeiro para a bicicleta só existe aqui e já não é reconhecido quando se passa de algumas dezenas de quilômetros a contar da praça da Matriz do Santíssimo Sacramento.

Diferente da zica paulistana, corruptela do termo ziquizira, que indica má sorte, a nossa zica é a versão peixeira da magrela gaúcha, da bice paranaense, do camelo fluminense, da gangorra pernambucana e da bike dos modernetes.

 

Em síntese: um veículo de duas rodas alinhadas, uma atrás da outra, unidas por um quadro metálico, comandadas por um guidom e ligada a um sistema de correia e pedais que funcionam como motriz. Isso sem esquecer do selim, onde vai sentado o vivente que guia a dita cuja.

 

A bicicleta, aqui em Itajaí chamada então de zica ou, carinhosamente, de ziquinha, é um ícone local. O termo ainda carece de uma explicação mais densa e melhor elaborada, que ao menos indique uma etimologia minimamente aceitável sobre sua origem enquanto palavra. Mas essa é uma tarefa para os estudiosos.

 

O fato é que a nossa zica acabou ficando de fora do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, cânone incontestável da última e mais bela flor do Lácio. A zica foi solenemente preterida e ignorada entre palavras como zichar, zifídio e zibelina.

 

O Dicionário Catarinense de Isaque da Borba Corrêa, que ostenta o pomposo sub-título de “Tratado de Dialetologia, Falares, Subfalares e Expressões Idiomáticas no Estado Barriga-Verde” também é outro que passa ao largo de nossa simpática ziquinha. O Dicionário Catarinense fala de zarolho, zipra, zolhudo, mas de zica que é bom, nada! Ou seja, a zica é uma incompreendida dentro da própria casa. Uma rebelde com causa.

 

Essa ausência incomoda ainda mais pelo fato de que Itajaí é uma cidade praticamente tomada por elas. Quase uma Zicópolis. Ou seria uma Zicolândia? Enfim, vivemos em uma Zicocracia única e peculiar. Aqui existem bicicletas para duas, três, até cinco pessoas. Bicicletas com um andar de cima e com uma correia vertical. Bicicletas que se desdobram, qual um bambolê, sobre o próprio eixo. Bicicletas para todos os gostos. É ziquinha que não acaba mais!

 

Desta forma, nada mais justo que iniciarmos uma cruzada pequeno-patriótica e carregada de identidade local em prol de nossa ziquinha. Vamos saudar e exagerar no uso do termo na literatura itajaiense. Vamos exigir que ela apareça nas novas edições dos dicionários e que em um futuro próximo, ela possa figurar orgulhosa e carregada de brio, entre os principais vocábulos da língua portuguesa.

 

Ao contrário, subo na zica arrenegado, saio num sarrafo e toco-lhe o pau pela Rua Blumenau!

®Felipe Damo

 

0 Replies to “Cadê a minha ziquinha?”

  1. ahahahahahah

    realmente, Zica é massa!!!! mas, imagino (em minha fértil imaginação), que a palavra tenha surgido qdo alguma criança em fase de aprendizagem das palavras, falou “quélo minha biziquéta manhêê”, vindo daí a corruptela “ziquéta”, e, assim, ficando o termo que apelida a famosa invenção do século XIX, “zica”.

    😉

  2. ahahhahahhah…
    adorei a ziquinha!
    ahahhahahhah…

    muito bom mesmo, esse texto.

    até lembrei que eu tenho
    um textinho sobre o “lhá”,
    que os mais velhos ou com sotaque
    mais carregado usam no lugar do advérbio “lá”.
    poderíamos criar uma série de textos
    temáticos sobre os falares de Itajaí.

    quem sabe um CLAP temático…

  3. Hehehe…
    Impossível deixar de registrar essa…
    Tivemos, em priscas eras, uma miss Santo Ângelo (loura, advogada e minha amiga!), um mulherão, enfim, cujo apelido é, até hoje… ZICA!
    Ahuahuahu…
    As palavras, enfim, servem aos mais diversos propósitos!
    Abração…

  4. costadessouza

    Muito bom! Muito bom!
    Que orgulho saber que a Zica ficou de fora dos compêndios. Assim o termo é ainda mais nosso.
    Vivi em Itajaí até os 22 anos e estou há dois em Blumenau. Aqui ninguém conhece “zica” mesmo, e com essa aplavra eu me sinto novamente peixeiro.

  5. vasculhando meu nome pelo Google, acabei achando esse texto. Como autor do Dicionário Catarinense, devo dizer que o termo “zica” apesar de idiomático ao Vale do Itajaí, não foi contemplado porque não se trata de um termo idiomático original e sim uma gíria. O meu dicionário o quanto pôde, evitou gírias, porque são inúmeras. Contemplando uma teria que contemplar todas. Somente as muito antigas foram consagradas no texto. Apesar de ser simpático ao termo, agora ainda mais depois da sua brilhante defesa, sinto-me frustrado por não tê-la contemplado. Só essa sua apologia sobre o termo, já é o bastante para que seja consagrada na 2ª edição.
    E tenho boa notícia: estou preparando uma segunda edição e vou contemplá-lo e se possível usando os termos que você está sugerindo. O texto será abonado por este site..Abraços e parabéns pela defesa brilhante do termo.

  6. graziela

    Esse termo é tão familiar pra mim, nasci em Balneário, mas sabes, também spu peixeira e com muito orgulho, pena que com o tempo perde-se um pouco do “dialeto peixerês”.

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