Desencontro

para G.B.

 

Me procuras. Eu não te procuro. Eu estou no teu contrário. Sou tua subtração casual. Aconteço para ti naquele horário perdido entre às nove horas e o meio-dia. Não me encontras mais. Nem em minhas palavras nem nos meus olhares. Só me encontras em ti. Meu último e involuntário refúgio. Cavaleiro mudo de uma história que não aconteceu. Chegaste na hora errada. Cheguei na hora errada. Amor da minha vida de um dia que o calendário não guardou. Há entre nós uma disritmia íntima e profunda. Um descompasso que resiste. Uma sintonia que tarda. Eu entendi o recado velado do universo: a coincidência existe. Coincidimos até na hora de partir. Segues sozinha pela tua estrada. Eu me perco no mar escuro e tisnado de incertezas. Não te encontrarei. Nunca saberei o gosto de tua encantação. Não terei tua doce inércia espalhada nos meus braços. Nunca brincarei com minha imagem refletida nos teus olhos. Nem saberei, afinal, se eles são verdes ou azuis. Não saberei nada de ti. Sozinho te condenei a ser eternamente uma abstração. Uma promessa. Uma aposta. Mas eu sigo o caminho. Te invento com tudo o que te falta. Tudo o que é desamparo e insensatez. Afundo em um silêncio triste e que dura pra sempre. Te sonho encontrar ainda em uma dessas manhãs sonolentas e arrastadas em todos os mesmos lugares que um dia conheceremos separados. Neles, pisarei teus passos. Sentirei que algo de ti esteve ali um dia. E tu sentirás minha presença nos lugares por onde terás que te demorar naqueles dias que são teus. Nossa relação será intimamente construída sobre cada um de nossos desencontros.

®Felipe Damo

 

0 Replies to “Desencontro”

  1. Andrezza Correa

    OI! Nossa… O que houve com seu coração, Sr. Poeta???
    A queda foi grande, pelo visto!
    É lindo, mas triste e cheio de sentimentos incertos, coisas que foram… São essas as lembranças que tens dessa pessoa??? Poxa… Bom, mas o poema tá lindo…
    Continuo observando, tá??? Um dia quem sabe eu não crio coragem e escrevo tb! rsrs abraço menino

  2. é tudo ficção…calma…calma…

  3. aliás, por que um escritor não pode interpretar assim como o faz um cantor, um ator???

  4. hahhahhahahha… muito convincente, Felipe!
    mas isso é apenas sinal de que o texto é mesmo muito bom. com ele, consegues mesmo criar um clima, uma atmosfera de tristeza e solidão. fazes valer a máxima de Pessoa que já virou clichê, repetido ad eternum e ad infinitum: “o poeta é um finge dor…”.
    mas enquanto ficcionas o sofrimento, tuas palavras podem justamente servir como espelho, roteiro de viagem ou fórmula de exorcismo para corações que experimentam os sentimentos que por ti foram descritos.
    e essa tua prosa poderia muito bem resultar num belo filme…

  5. experiência da escrita, uma experiência de amor, mas o amor como um afeto puro, impessoal que pouco tem a ver com o vivível.
    é isso mesmo, ficção. mas é também experiência.
    Gostei Felipe.

  6. ca-ra-lho Felipe!
    que texto incrível!

    “Amor da minha vida de um dia que o calendário não guardou.”

    fodástico! parabéns!

  7. meo deos! como o amor dá ibope… principalmente se houver sofrimento… o tópico tá bombando! urru!

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