Descartável

Sábia era minha bisavó quando, cheia de propriedade, dizia: “quem guarda o que não precisa sempre tem o que quer”. Ela vivia outros tempos, onde se tinha pouco, então se guardava de tudo. A mania de conservar as coisas passava longe da noção de acúmulo de riqueza capitalista. Guardava-se uma panela velha pelo simples fato de que as coisas ainda não tinham embutidas nelas a idéia do descartável.

 

Há de se ponderar: as coisas duravam mais. Duravam, muitas vezes, uma vida inteira. E mesmo depois de obsoletas ficava difícil se desfazer de algo que já era tão íntimo. A travessa que se ganhou da tia Lurdinha como presente de casamento, as xícaras de porcelana fina que herdamos de mamãe, até aquele maldito jarro de vidro azul com dálias em relevo que ninguém sabe pra que serve mas que todos morrem de medo de um dia quebrar. Talvez o receio de ser jogado fora tenha criado nas pessoas uma espécie de impedimento velado de jogar as coisas velhas no lixo. E as pessoas acabavam envelhecendo com as coisas.

 

Não faz muito tempo ainda achávamos estranho o prazo de renovação dos estoques nos países mais desenvolvidos. Vez ou outra aparecia um amigo que havia acabado de chegar do Japão e dizia naquele tom intimidador: “lá você encontra televisão, geladeira, tudo no lixo…eles querem sempre o produto de última geração, o último lançamento”. Ou outro, vindo da Alemanha “cara, você precisa ver, um jogo de sofá novinho abandonado no meio da praça”. E aquilo nos parecia um assombro.

 

Hoje em dia, aqui nos trópicos, já podemos dizer que absorvemos alguns destes costumes ditos desenvolvidos. Ou alguém ainda manda arrumar o ferro de passar roupa? O chuveiro então, “nem pensar, troca logo!” Para algumas coisas nem mais se discute. Compra-se uma nova e ficamos dispensados deste incômodo desnecessário que é encarar o rapaz antipático da assistência-técnica.

 

Recentemente estive em uma casa no interior, no alto de um morro. Olhei com espanto dois fogões aposentados no canto da área de serviço, um estrategicamente equilibrado sobre o outro, servindo possivelmente de algum tipo de estante ou armarinho. A família recusava-se a descartar os dois fogões velhos. Algo raro nos dias de hoje, pensei. E assim também era com algumas malas de caixeiro-viajante, colocadas uma sobre outra na dispensa, guardando sabe-se lá o que. Chaleiras, utensílios e tudo o mais.

 

Naquela casa o tempo das coisas se demorava. Se alongavam as tardes. Tudo passava distante de nossa vida de embalagens descartáveis, de copos descartáveis, de guardanapos descartáveis, de relacionamentos descartáveis.

 

0 Replies to “Descartável”

  1. hahahahahhahha…
    é um zé gracinha, mesmo…

  2. e o que fica do descartável?

    (preciso mostrar esse texto para o meu pai…)

    [um viva à inutileza das coisas.]

  3. ah, gostei muito no novo (?) visual da página!

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