Odair José Fields Forever

Segunda-feira, dezoito horas. O ambiente é pra lá de estranho e eu nem tinha bebido quando meus passos entram um depois do outro nos pavilhões da Festa Nacional do Marreco (Fenarreco) na cidade catarina de Brusque. Putamerda, Odair José na Festa do Marreco? Só pode ser o flashback de alguma droga pesada que tomei em outra vida!

Na platéia diversos grupos de idosos fazem coreografias com aquele jeito que só a minha avó dança. Uns dando soquinhos no ar, outros com os indicadores levantados, outros regem alguma orquestra imaginária. Quem é de Brusque? Eeeeeeeeeeee. Quem é de Blumenau? Eeeeeeeeeeeee. A alegria toma conta dos velhinhos que somam umas 300 pessoas e juntos contabilizam uns 22 mil anos, tirando uma média por baixo.

Um set list de clássicos – A música incidental sobe. A luz se apaga. Uau! Odair José entra impávido. Dá tchauzinho pro público e pega o violão do qual não desgrudará até o final da noite. Gritos, gritos! A mesa exagera no gelo seco e Odair José fica parecendo a nave da Xuxa. “Cadê?”, diz uma senhorinha. Em poucos segundos a fumaça se dissipa e a festa começa com “A Noite Mais Linda do Mundo”, clássico que contém seu arroubo filosófico mais rebuscado: “felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. Eu escuto e penso no assunto.

Com uma time relativamente jovem (é apenas a terceira vez que tocam juntos) e com cara de banda punk falida, os caras apresentam um arranjo mais rock das músicas, com um peso no teclado e na guitarrinha que de longe, mas bem de longe mesmo, lembra um blues. Depois tocam outras tão famosas quanto: “Esta noite você vai ter que ser minha”, “Eu vou tirar você desse lugar” e “Deixe essa vergonha de lado”. A platéia delira. Enquanto eu curto o momento no melhor estilo carpe diem de ser, uma velhinha puxa meu braço e pergunta “ele não vai tocar aquela do hospital?”. Putz, essa é do Amado Batista. E agora, o que digo? Fico com remorso de tirar essa ilusão da vozinha e acabo enrolando. “quem sabe ele não toca por último, né?”, retruco. Ela consente com um sorriso por trás dos óculos. Deixo pra lá e volto ao palco.

 

Odair conversa com a platéia. Faz gracinhas. Pergunta se alguém já sentiu saudade. Centenas de braços se erguem. “Não aquela saudade de família, saudade de cama”, escandaliza. Metade do povo ri. A outra metade está pasma. Ele toca mais algumas e avisa ao final: “Essa é a última, um feliz Natal e um próspero Ano Novo para todos!” A platéia entende tudo errado. Pensam que o show acabou e começam a esvaziar o pavilhão. E ele mais que rápido “Calma, gente, tem mais duas ainda!” Voltam todos. Alguns sentam, outros dançam em pé. A banda manda mais dois clássicos: “Pare de tomar a pílula” e “Cadê você (que nunca mais a-pa-re-ceu aqui)” e a noite se encerra.

 

Cara a cara com a lenda – A noite se encerra para eles. Pra mim ainda vai longe. Corro para os camarins onde umas 15 pessoas já se acotovelam para tirar uma foto com o Bob Dylan da Central do Brasil. Me acompanha Rafael Weiss, que está incumbido de presentear Odair com uma gravação de sua música “A Viagem” feita pelo pessoal do Pipodélica, de Floripa. “Calma lá pessoal, entra de três em três”, avisa o segurança que é irmão gêmeo de Mark Chapman, o assassino de John Lennon, com direito à óculos e tudo. Segurança de óculos? Essa também é nova. Mas vamos lá.

 

Depois de uns 15 minutos entramos e Odair José nos recebe com um abraço. Feitas as apresentações conversamos um pouco de música. Ele diz que nem conseguiu ouvir direito as músicas de seu tributo e que lamenta que “A Viagem” tenha ficado de fora. Confirma que dia desses tomando uma cachaça com Zeca Baleiro ainda comentou isso e deixa escapar que Tom Zé também foi preterido da coletânea que homenageou sua carreira. Weiss fala do tributo que está ajudando a organizar do Erasmo Carlos. “Mas desse eu quero participar”, grita Oda. “Essa eu toco agora”, se empolga e começa a cantarolar alguma coisa do tremendão que eu não conheço.

 

O papo vai longe, seguem as fotos, e mais papo, até que o guitarrista se desculpa: “tem mais gente esperando, pessoal”. É hora de dar tchau, como diriam os Telletubies. Odair José pede pra mandar um e-mail, pra trocarmos mais idéias, falarmos de música. Mas é claaaro, mestre! Nos despedimos e voltamos para casa com aquele sorrisinho idiota na cara. Missão cumprida. Viva Odair José! Viva a Fenarreco! Viva a música brasileira!

 

0 Replies to “Odair José Fields Forever”

  1. mundo47

    E pensar que nós fomos confundidos com seguranças do velho Oda.

  2. cara, só lamento não ter estado lá, compartilhando com vcs.
    deve ter sido a maior loucura… psicodélico total.

    parabéns pela aventura. sou fã do Mestre Oda.

    e, cara, esse teu texto ficou muito bom, do título
    à última linha.

    sensacional!

  3. Dae Rapaz, ótimo texto, sou fã do Oda! Na real achei teu texto por acidente procurando na internet algum contato dele. É que escrevi um roteiro baseado em “Eu vou tirar vc desse lugar” e queria mandar pra ele, ver se o cara permite. Terias algum email não? Valeu. Um abração.

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