Cartório

O calor parece mais quente às três horas de um dia de dezembro. Eu caminho sob o sol da meia-tarde. É final de ano. As pessoas naturalmente se esbarram pelas ruas. Pensam no Natal, no décimo-terceiro salário, nas férias de janeiro e na roupa do reveillon. Alguns apressados já se aventuram em pensar no Carnaval. Dezembro é um mês engraçado. É tarde, mas é a primeira vez no ano em que vou ao cartório. E cartório é lugar de coisa séria. Enquanto subo as escadas de um velho edifício do centro da cidade penso nas centenas de coisas que um cidadão comum pode fazer em um cartório, mas a minha falta de experiência não consegue enumerar mais do que meia dezena de serviços. Eu preciso fazer um cartão, reconhecer firma e atutenticar um documento. Arranco uma senha da máquina como quem recolhe uma flor ou uma cartela de loteria ou, ainda, um segredo. Oito é meu número. O algarismo do progresso material. O símbolo da ressureição para Santo Agostinho, sabe lá qual relação o santo via neste número. Oito ou oitenta, penso eu enquanto reviro o papelote da senha de cabeça para baixo. A resposta logo vem. Oito, chama a moça atrás do balcão. Ela tem as mãos cobertas de prata. E é para lá que vai a senha que por poucos instantes dançou nas minhas mãos de tudo vazias. Ela tem jóias nos dedos, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas, no nariz e um pequeno brilhante em um dos dentes. Se não tivesse jóia alguma ainda assim seria bonita. Ela pede meu nome. Eu respondo e peço o dela. Ela estranha o pedido mas sorri enquanto recolhe meus dados. Não responde e acabo sem saber se ela não ouviu direito ou se não quer me dar toda essa confiança. Faz cara de séria, desvia o olhar do monitor e dá aquela que parece ser a melhor notícia do dia: eu já tenho um cartão de firma no cartório. Suspiro aliviado sem saber ao certo porque. Ao menos tenho alguma coisa ali. Ela pede para atualizar os dados. Quer saber meu endereço. Pede o telefone. Também quer o celular. Eu acho um golpe baixo, mas vá saber. Digo a profissão. Ela pede ainda o estado civil. Parece um teste. Divorciado. A palavra sai arrastada com aquele peso muito parecido com o arrependimento de não ter arriscado um “solteiro” mais ousado naquele momento. Pra termirnar pede para eu assinar um novo cartão e recolhe minhas impressões digitais. A essa altura tenho um sentimento de que ela sabe praticamente tudo sobre mim. E eu nem sei seu nome. Pago no caixa. Retiro os documentos e vou embora enquanto ela já está entretida com outro cliente. Digo um boa tarde de despedida e parece que escuto ela responder. Mas só parece. Não tenho certeza. Desço as escadas e lá fora o sol continua castigando a cidade. Nenhuma árvore ou nuvem. Eclipses não estão programados para esse fim de mês. Há música nas portas das lojas. Há dois homens vestidos de Papai Noel que, surpresos, se encontram na calçada. Há enfeites coloridos nos postes da Rua da Praia. Há eu e meus documentos. Há a moça do cartório. E eu nem sei seu nome. Dezembro é um mês engraçado.

0 Replies to “Cartório”

  1. é requisito básico para se trabalhar em cartórios de itajaí o uso excessivo de prataria!!!! incrível o que faz a moda ehehehehhe

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