O chamado de Carlos Marighella

Carlos Marighella é um personagem tão incrível da história recente brasileira que é até difícil acreditar que ele existiu de verdade. Tão excepcional quanto sua figura histórica é a peça Carlos Marighella e o Chamado de Cangoma, levada aos palcos de Itajaí neste mês de maio pela Vermelho Núcleo Cênico. Com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e com patrocínio da Coqueiro, através do FUNCULTURAL, o monólogo traz Lourival Andrade Jr. no papel de muitos Marighellas. A direção fica por conta de Pépe Sedrez e o texto é da competente Eliane Lisbôa que, além de escrever bem, declama Maiakovski como poucos.

A montagem apresenta ao público um mosaico humano do que representou o revolucionário e guerrilheiro baiano, que ostentava o pomposo título de “o inimigo público número um” da ditadura mal-cheirosa que se instalou no país nos idos de sessenta. Sua militância no Partido Comunista Brasileiro, o mandato de deputado federal constituinte em 1945, a prisão, a clandestinidade, a opção pela luta armada em defesa do povo brasileiro, os atentados sofridos, as torturas e, por fim, a morte pelas mãos sangrentas da ditadura.

Em outro viés, a peça não negligencia de maneira alguma aspectos do grande homem que foi Marighella. Seu amor por Clara Charf, a eterna companheira, que emocionou a todos com sua presença na noite de estréia no Teatro Municipal de Itajaí. Sua paixão pelo futebol e pelo carnaval. Suas relações com a família, com companheiros de partido e amigos. Sua verve poética sempre presente e pulsante. O espetáculo atesta: Marighella foi um homem completo.

A atuação de Lourival Andrade Jr. é outro fato digno de nota. Eu não sou crítico especializado em teatro mas, na condição de leigo, sei dizer quando algo me desgosta ou quando me apetece. Lourival demonstrou que a ação oxidante do tempo não lhe causou ferrugem alguma, mesmo estando há anos sem subir aos palcos e encarar a platéia de frente. Conduziu sozinho um espetáculo vibrante, intenso e verdadeiro.

Carlos Marighella e o Chamado de Cangoma é, sobretudo, um chamado à luta, um chamado ao não-esquecimento, um chamado à correção de uma época perdida e ocultada por décadas pelos opressores do povo e da classe trabalhadora. É um feliz resgate de uma história que precisa ser contada e de um homem que – quase quarenta anos depois de sua morte – ainda precisa ser atentamente ouvido.

0 Replies to “O chamado de Carlos Marighella”

  1. Helio Jorge

    Brincadeira tem hora e chegou a hora de parar de brincar, principalmente quando o assunto é Carlos Marighella: exemplo de nacionalidade e coragem.

    Faço das palavras de Felipe as minhas, sobretudo, acerca da performance de Lourival Andrade Junior. Nunca o vi atuando, mas devo dizer, confirmando o que já disse Felipe, ele está de volta aos palcos, sim senhor.

    Parabéns a Lourival e aos que tiveram a coragem, – é coragem mesmo, falar de alguém rejeitado pelos que estão ainda por aí mandando e desmando na cultura e nos meios de comunicação desse país, – e parabéns, também, a Itajaí através dos que prestigiaram o espetáculo com as suas presenças. Eu fui um desses felizardos. Longa vida a “Carlos Marigfhella e o Chamado de Cangoma”!

  2. Tomara que muito mais gente veja essa excelente peça, deste sensacional personagem da nossa história.

  3. estão comportados, então…rs

  4. Helio Jorge

    Não coça vara com onça curta, cara!

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