O xarope de plátano e eu

Como diria o velho Braga, há coisas que lembram a infância. Tive que repetir isso durante o dia de ontem por algumas vezes me deliciando com a densidade desta oração. E o responsável por isso foi o xarope de plátano que encontrei no mercado municipal pela bagatela de 44 pratas. Explico: desde criança eu andava atrás do xarope de plátano.

Pode parecer bobagem ou até um capricho. Mas o xarope de plátano ou bordo – como também é chamado – é uma iguaria singular. Ele se apresentou pela primeira vez aos humanos no Canadá onde, inclusive, figura sua folha recortada na bandeira nacional canadense, tamanho o apreço que os locais têm por ele. Além de ser uma árvore charmosa e excelente – que tem aos montes na estrada de Gramado – para a indústria moveleira, o plátano também é base para esse delicioso xarope.

Conta a lenda que certa vez um índio – desses canadenses – durante a caçada cravou a machadinha em um tronco da árvore, de onde escorreu uma seiva lambuzando o fio metálico reluzente do instrumento. Mais tarde, ao usar a ferramenta para caçar um pobre animal, um alce, digamos, a seiva passou para a carne. Mais tarde ainda, ao preparar a carne, a linda indiazinha que além de ser expert em castores também era esposa do índio, percebeu o gosto adocicado do tempero e bingo! Estava descoberto o xarope de plátano.

A partir daí os canadenses começaram a coletar seiva durante a primavera para ferver, ferver e ferver durante horas até chegar ao delicioso xarope amendoado usado em doces, carnes e nas famosas panquecas dos livros da Laura Ingalls Wilder.

Bom, estive durante anos atrás desse xarope. Coisa rara em terras brasileiras. Cheguei a pedir uma vez a uma amiga que vinha do Canadá. “Traz um vidrinho pra mim”. A diaba não trouxe. E eis que dia desses ao passear pelo mercado municipal topo com um desses vidros na estante de uma mercearia. Oh, alegria!

Agora estou aqui. Eu e um vidro de xarope de plátano. O português culto – que não é o Saramago – diria para eu falar “um vidro de xarope de plátano e eu”. Enfim, aqui estamos. É bom. Convenhamos, podia ser horrível. Mas é bom. Faz justiça à espera e à fama.

Hoje, depois de anos, eu sei o que é comer xarope de plátano. E agora fico aqui pensando que bem que eu podia me mudar para Gramado, construir uma cabana na curva da estradinha de cascalho fino e dar início, historicamente, a produção nacional de xarope de plátano. Só me falta o alce.

0 Replies to “O xarope de plátano e eu”

  1. Caro Damo, pensei que a indiazinha tinha criado o “alce ao plátano” ou o “castor laqueado”, quem sabe este último, baseado no pato laqueado chinês, – talvez vinda pelo estreito de Bering-, feito a base de resina de plátano! rsss

    Eu, modestamente, tenho um sonho mais simples; comer carne de sol com “manteiga de garrafa”. Essa manteiga, me transporta ao tempo em que eu caçava calango no lajedos do sertão de Pernambuco sob o sol escaldante de Galuber Rocha e Graciliano Ramos! rsss

  2. Damo, quanto ao tal código que te pedem pra entrar com um comentário no meu blog, é pura burogracia, nêgo, coisa de estado forte. rsss
    Aqui, diferente de lá, já é boca livre! rssss

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