FAQ – Felipe Damo

Por que você escreve?
Para terapia. Para esquecer. Talvez para organizar o mundo. Alguns autores defendem que a retórica e a literatura são formas que criamos para organizar nossas idéias e concepções. Talvez seja pra isso. Não vejo outro motivo. Particularmente não escrevo pra convencer ninguém, não tenho textos ideológicos e tampouco busco seguidores ou leitores fiéis.
Não pensa em publicar?
Livro não. Essa foi uma decisão que tomei. Hoje em dia temos tantas formas de publicações on line, há tantas maneiras de chegar às pessoas que não vejo mais porque gastar papel à toa. Depois, a qualidade das publicações anda tão ruim que acho que sempre passa pela cabeça do autor fazer um exame de consciência antes de publicar pra ver se não está contribuindo para esse imenso lixão, esse aterro literário no qual se transformou o mercado editorial.
Você foi um dos criadores do CLAP. Como foi a experiência?
O CLAP foi um caderno literário importante que criamos há alguns anos em Itajaí. Na época surgiu como uma idéia do Rômulo Mafra, Cristiano Moreira, Daniel dos Santos, Sebastião Oliveira e Rafaelo de Góes. André Pinheiro e eu aparecemos mais tarde. Acho que fui o último convidado a entrar no grupo. Depois o Cristiano e o Daniel acabaram por se desligar informalmente do CLAP, a Déborah de Barros entrou. Passamos por mais algumas reformulações. No final do ano passado Déborah e eu optamos por sair do grupo também e agora ele deve ressurgir com uma nova turma. Eu defendo o CLAP porque ele representa um amadurecimento muito grande de um grupo de escritores locais. O CLAP nesses anos publicou diversos textos, apresentou vários autores novos, que nunca haviam sido publicados, além de dialogar com grupos de escritores do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Curitiba, Mato Grosso do Sul, entre outros. O pessoal do CLAP fez um trabalho que foi reconhecido com matéria na Gazeta Mercantil, na revista Entrelivros, só pra citar alguns exemplos. O caderno literário surge também em uma época que Itajaí já possui um contingente considerável de autores publicados, fruto da lei municipal de incentivo à cultura, que aqueceu o setor e possibilitou que esse povo todo tirasse os textos das gavetas. Então, em algum momento, o CLAP serviu pra fazer a amarração desses autores, pra criar uma cena local, publicar resenhas e fazer com que um ambiente mais dialógico fosse disponibilizado a partir de um quadro onde você tinha muitos escritores solitários soltos pela cidade que não se falavam.
Quem nasceu primeiro, o CLAP ou o Sarau Benedito?
Em tese o CLAP surgiu antes. Mas o Sarau Benedito era uma idéia que já vinha sido amadurecida desde antes. O Sarau também surgiu de maneira mais ampla, com diversos autores que não pertenciam ao CLAP, e em parcerias com o Movimento os Rústicos e o Coletivo de Escritores Pai Tibúrcio, grupos que tiveram uma vida efêmera, mas marcaram sua época por essa participação na criação do Sarau. O Sarau acabou sendo um grande ponto de encontro e um espaço nobre para a literatura local. Não é possível precisar hoje quantas pessoas já passaram pelo Sarau Benedito, declamando ou assistindo. Mas teve gente de todo o Brasil, desde o Acre até o Rio Grande do Sul. O Sarau Benedito acabou motivando outros saraus na cidade, o que também é muito gratificante. No ano passado os idealizadores do Sarau foram convidados a se apresentarem na Feira do Livro de Porto Alegre, constando na programação oficial do evento, e lá também foi uma oportunidade ímpar de mostrar pra fora do estado o que está se produzindo aqui.
Você escreve desde quando?
Desde os 17 anos. Até então eu era uma negação. Sempre gostei de ler, mas nunca de escrever. A partir daí, com a entrada no curso de jornalismo, eu comecei a pensar com mais carinho nesta opção de publicar o que escrevia. De lá pra cá não parei mais. Das crônicas aos poemas, tenho produzido relativamente bastante e boa parte do que escrevi está aqui no blog (http://felipedamo.wordpress.com) disponível, sem copyright, sem nada. Só peço que as pessoas preservem a fonte. Mas sempre digo que se alguém quiser pegar um texto meu, assinar e dar pra mulher dizendo que é uma declaração de amor, beleza. Não vou morrer por isso. A arte é superior ao artista. A arte que fala, e não o autor. Blanchot e Battaile escreveram sobre isso. Então é a arte falando, e a arte não tem esses brios, essas vaidades. A arte simplesmente acontece.
Quais autores te influenciaram mais?
Eu gosto muito do Ernesto Sábato, que escreveu O Túnel, que tenho como um dos melhores livros que li, talvez o melhor. Proust, eventualmente. Joyce e Faulkner são revolucionários. Steinbeck escreveu da maneira com a qual eu gostaria de ter escrito. É belo sem limites. Também tenho um carinho pelo Kerouac e sua turma de loucos, que ocupam um lugar de honra na minha biblioteca. Isso na prosa. Na poesia seria difícil definir nomes. O meu gostar atinge níveis de imensidão nessa área.
Você prefere escrever poesia ou crônicas?
Desconfio que minhas crônicas têm mais qualidade, embora os poemas sejam mais verdadeiros.
O amor é um tema recorrente em seus textos…
Falar de amor é sempre caminhar sobre a tênue linha da pieguice. É um campo onde se experimenta muito e às vezes se erra. Mas eu cresci em uma cidade portuária. É difícil não se apaixonar com tanta gente indo e vindo, com tanto navio chegando e partindo. Talvez eu fale mais sobre a forma como as pessoas se relacionam do que sobre o amor. Guardo dúvidas sobre o amor nesses tempos líquidos, como diria Bauman, mas espero que eu também esteja certo nas minhas certezas referentes a este sentimento.
Quais são os planos pro futuro próximo?
Ir embora.

0 Replies to “FAQ – Felipe Damo”

  1. Pô, taí gostei deste FAQ! Uma espécie de meaculpa. Eu entendo. Apenas discordo de uma coisinha que, acredito, é pura lenda urbana:

    “Mas eu cresci em uma cidade portuária. É difícil não se apaixonar com tanta gente indo e vindo, com tanto navio chegando e partindo.”

    Pode até acontecer essas idas e vindas, mas pela BR 101, através da SantoAnjo, ou pela Catarinense! Pelo porto, apenas chegam chineses, coreanos e, eventualmente, russos, que enchem a cara no Marisa e fazem comprinhas nas Americanas do Shopping local e, no dia seguinte, dão o fora sewm saber bem onde eles estiveram: se na Argentina ou no Paraguay! rssss

  2. hauhuahuhauhuahuauahuhuahuahuhauahuahaua

    ah, e tb vou copiar este FAQ pro meu blog, já que o Helinho já se surrupiou-se da idéia…

  3. […] Rômulo Mafra By Rômulo Mafra inspirado nos FAQs de Felipe Damo e Helinho, que podem ser lidos clicando no nome dos […]

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