Que Shiva nos proteja das estátuas de jardim

Não se sabe ao certo quando o ser humano começou a se engraçar por esculturas e achar bonito ter obras de arte espalhadas pelos ambientes domésticos. O fato é que com o advento da modernidade, sempre ela, as próprias esculturas, antes trabalho de uma vida e hoje industrializadas, podem ser adquiridas sob o preço de poucas patacas por qualquer amante da “boa” arte.

Se por um lado isso denota um comportamento cultural saudável e positivo, por outro lado abre espaço para mais uma bizarrice da sociedade atual, que é a ornamentação ostensiva de jardins. Anões, animais, personagens da Disney, garças, caramujos, e uma infinidade de outros seres andam povoando os quintais da nação. Tem gente que acha lindo. Uma espécie de exército chinês de terracota kitsch espalhado entre a varanda e o portão da casa.

Tudo começou com os anões de jardim. Alguém em algum momento da história com o espírito bem fofo colocou na cabeça que anões, gnomos, ou o que quer que o valha, gostavam dos jardins e viviam por lá alegremente. Foi o suficiente para que outras pessoas com o mesmo grau de fofura começassem a espalhar anões pelos pátios das casas, sítios e quintais dos cinco continentes. Em represália, na França, chegaram até mesmo a criar um movimento chamado Frente Nacional pela Libertação dos Anões de Jardim, cujas ações de guerrilha resumiam-se a seqüestrar anões de jardins particulares e devolver as criaturinhas aos bosques e florestas francesas.

Mas anão de jardim se reproduz mais que hare krishna em semáforo e logo os anões foram se diversificando, sendo seguidos, um a um, todos os sete, pela Branca de Neve da história. No traço de Walt Disney, é claro. Porque não é qualquer Branca de Neve, nem qualquer anão. Esgotadas as possibilidades “ananísticas”, começaram a aparecer os animais. Primeiro os silvestres: garças, caramujos, sapos de todos os tipos decorando os canteiros. Depois os domesticados: cães, ovelhas, bois e cavalos. Ninguém me pergunte o que um boi de concreto faz num jardim, mas que tem boi, tem!

Num desbunde escultural, chegaram a colocar em jardins réplicas do Cristo Redentor e da Pietá, anteriormente uma presença garantida em túmulos, já apelando para o lado religioso da coisa. E esses dias, pasmem, em uma dessas minhas viagens ao interior do Brasil, encontro um deus Ganesha a venda na beira da estrada. Sim, o deus elefante do hinduísmo, dançando todo faceiro, em uma clara demonstração da influência que a última novela das oito tem sobre a vida das pessoas.

Olha, não é nada contra os hindus, mas Cristo só tem um. Vai lá ver quantos deuses existem na mitologia hinduísta. São milhares. Já pensou se decidem começar a vender imagens da deusa Kali, Vinshu e Shiva? Olha, tem mais deuses na Índia do que pokemon no Japão. Vai faltar canteirinho. Que Shiva nos proteja das estátuas de jardim. Abaixo essa cafonice!

0 Replies to “Que Shiva nos proteja das estátuas de jardim”

  1. Que tal cópias do Nelson Ned em gesso e com um dispositivo acoplado a um alto falante? Quando alguém entrar na casa o “Nelsinho Engessado” começa a cantar: “Na vida tudo passa, tudo passaráááá!”

    Bem vindo ao mundo real, Damo!
    abçs

  2. Marjorie Bier

    hahahahahahahahahah

    Quase me urinei!!!!

    cara, eu vi o tal Cristo Redentor. Tinha pouco mais de de 5 palmos. Bizarrice é elogio!!!

    Besos

  3. marta

    esqueceu dos cogumelos

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