O homem que acabou com a Coca-cola

Foram muitos anos até que Hrant Vosgueritchian conseguisse entrar na tão cobiçada lista da revista Forbes destinada aos maiores milionários do mundo.

Para chegar até ali ele teve que rabiscar seu caminho tortuoso superando o nascimento no sopé de uma montanha no interior da Armênia, a infância pobre, o suicídio do pai, a fuga da cadela Voldovskaia, a incompreensão e a repetência consecutiva na escola do bairro judeu, a feiúra adolescente, o fato de começar a vida entregando garrafas de leite, para depois dirigir um táxi velho para o Regime Comunista, ser catapultado para um serviço de última categoria em uma das infindáveis repartições públicas do Estado Soviético, depois transferido para o Azerbaijão sendo vítima de constante preconceito, apelidado de “Seu Armênia” pelos corredores da petrolífera estatal sediada em Baku, até conseguir catalogar todas as prospecções do abundante petróleo soviético uma a uma, com uma riqueza de detalhes e dados impressionantes que mais tarde, com a queda do regime, fizeram com que ele constituísse uma empresa privada de mineração a ponto de se tornar a maior potência da Rússia atual na exploração e comercialização de petróleo, gás natural e derivados.

O fato é que o armênio de um metro e cinqüenta colecionava bilhões. A vida solitária, a austeridade nos modos, a avareza excessiva tinham apenas um motivo: acabar com a Coca-cola. E aos setenta e cinco anos, Vosgueritchian, que passaria muito bem por qualquer um desses velhinhos que sentam no banco dos fundos do metrô, estava prestes a colocar em prática seu plano diabólico.

A operação foi toda feita em silêncio. A direção levou dois meses para chegar a uma conclusão. Mas a proposta era irrecusável e teve até quem dissesse que seria uma boa jogada de marketing, que ficaria para a história: o armênio daria toda a sua fortuna pelo estoque completo da Coca Cola e compraria toda a produção dos dois meses seguintes. Na negociação estariam todas as jazidas, maquinário, ações, além do capital investido pela petrolífera. Os acionistas americanos acharam que era o que faltava pra dizimar os refrigerantes concorrentes na década seguinte. Era impossível não aceitar. E eles aceitaram.

Em um memorando de 14 linhas a Coca-cola expôs aos seus distribuidores a impossibilidade de atender às encomendas pelo período de dois meses. Muitos não entenderam, mas logo os boatos e fofocas foram construindo a verdade que aos poucos foi sendo conhecida. O impacto inicial foi na bolsa de valores de Nova Iorque, como era de se esperar. Primeiro as ações caíram, logo depois operaram em forte alta. A notícia chegou aos jornais, comandou o noticiário das TVs durante dois dias rendendo especiais sobre o tema, enquanto a população mundial temendo o fim do refrigerante corria aos mercados, postos de gasolina e mercearias. Em uma semana não havia mais Coca-cola disponível. A última foi encontrada em um barzinho nos arredores de Sana’a, no Iêmen, com o preço majorado em dez vezes.

Na terceira semana sem Coca-cola uma lata pequena podia ser encontrada no e-Bay por alguns milhares de dólares. Videntes previam que o refrigerante nunca mais seria produzido. A Coca-cola teria vendido a fórmula. As bolsas voltaram a cair quebrando as economias emergentes e sacudindo o mercado financeiro mundial.

Ao final de um mês o número de garrafas ainda existentes era irrisório e cientistas já buscavam formas de conservar o líquido por mais de seis meses sem a perda de gás do produto. Pesquisas mundiais davam conta de que os refrigerantes similares não preenchiam o espaço deixado pela marca. Não atingiam nem cinco por cento do consumo.

Na quinta semana sem Coca-cola alguns políticos chegaram a esboçar uma discussão no encontro da Assembléia da ONU mas, temendo cair no ridículo, deixaram o assunto de lado. Nas ruas manifestantes protestavam contra a ausência do produto. Grávidas tinham desejos. Viciados no refrigerante começavam a engrossar o número de internações psiquiátricas em decorrência de crises de abstinência. Uma lei muito tímida no estado da Flórida obrigou bartenders a esclarecerem sobre a composição do Cuba Libre com refrigerantes similares.

Enquanto isso, na Nigéria, o maior produtor de noz de cola do mundo, milhares de camponeses marchavam rumo a capital do país, solicitando ajuda do governo diante dos estoques cada vez maiores. Era a sexta semana e nada importava Vosgueritchian.

A sétima semana foi marcada pela convulsão social quando uma equipe de reportagem conseguiu entrar escondida em uma fábrica do refrigerante na Eslováquia e filmar a produção e a estocagem normal do produto. A cena chocou milhões de pessoas por todo o mundo. O Congresso Americano preparou um pedido de explicações endereçado à companhia. Aquilo cheirava a Fidel Castro e suas artimanhas.

No início da última semana Vosgueritchian deu sua tacada de mestre. Gastou os últimos centavos de uma conta escondida em um banco na Suíça para pagar um comercial em horário nobre transmitido simultaneamente em todos os países, com exceção da Venezuela. O comercial durava apenas um minuto e tinha um cenário bastante simples. Nele, em plano aberto, o armênio aparecia sentado sobre um engradado de Coca-cola, com centenas de milhares de engradados ao fundo. Tranquilamente ele abria uma garrafa com um daqueles abridores antigos e enferrujados e antes de tomar um gole ainda derramava um pouco no chão. “Para o santo”, dizia, em uma referência a São Gregório, padroeiro de seu país. E durante o resto do minuto degustava cada gole do líquido precioso.

Era o que faltava para suicídios em massa por todo o globo. Estimaram que mais de 40 milhões de pessoas deram fim em suas vidas. O mundo parou. Mas foi a última semana. Dias depois a Coca-cola retomou a distribuição do produto e em um mês tudo estava regularizado. Oitenta e três dias depois ninguém sequer lembrava do ocorrido. Foi quando Vosgueritchian morreu, sozinho, esquecido e na miséria, em uma rua de Bombaim, após tomar uma Pepsi.

0 Replies to “O homem que acabou com a Coca-cola”

  1. Jucinei

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    ótimo

  2. Sergio

    pra pensar besteira a cabeça funciona, né?

  3. Muito bom! Gostei das citações de nomes de pessoas e lugares, técnica inteligente e eficiente que faz com que o relato ficcional pareça fidedigno as vistas do leitor.

    Voltou tinindo, né, futuroprefeito?! rss

    PS: Reparou que o Mafra está tentando argentinizar a bandeira de Itajaí. Lê o Menino que Não Machuca (virgens, é claro! rsss)

  4. Marjorie Bier

    Vou roubar todos os nomes para a matilha que ainda não tenho.

    OOOOO mente fétil, hein!?

    Besos

    1. Marjorie Bier

      FéRRRRtil!

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