Nas águas de um rio

Há um rio perto daqui. Fossem outros os tempos, sem tantas casas, prédios e fábricas, eu até poderia vê-lo da sacada do sobrado. E diria poeticamente que na frente de minha casa, após as árvores da campina, passa um rio. Certamente contaria vantagens de ter um rio ao alcance do olhar, caminharia por suas margens no fim das tardes e tudo seria mais bonito em minha vida.

Nos conhecemos há quase vinte anos, o rio e eu. Nos vemos todos os dias. Aprendi nesse tempo a conhecer as belezas secretas de seu leito, assim como um homem conhece os caprichos de uma mulher com o passar dos anos e a considera cada vez mais bela. Hoje o reconheço em sua profundidade. Sei das águas barrentas e revoltas dos períodos difíceis, mas também sei da placidez das águas de um verde mais escuro que eu já conheci, de um céu refletido e da vida que em suas entranhas sempre se renova.

Cruzo a ponte com calma. Contemplo seu percurso. O rio também me saúda. Somos dois velhos amigos. Poucos lhe dão o valor que eu dou, eu sei. Fosse outro lugar e suas margens seriam mais bem cuidadas, crianças saltariam de um pneu amarrado em uma árvore, namorados passeariam de barco. Mas a cidade – ou o tempo – levou tudo isso. E assim esse meu rio idealizado hoje só vive na poesia, não pertence mais a esta realidade. De caminho, virou obstáculo. Nas cheias se transforma em vilão. Não fosse o tamanho, com certeza já teria sido aterrado para a construção de uma imensa avenida, que desafogaria o trânsito do centro da cidade. O homem e sua engenharia de destruição do mundo.

Mas também se surpreende com o rio. Deve haver alguém que ainda constrói barquinhos, que tenta pescar com caniço fino. Sempre há uma criança a ricochetear pedras na lâmina d’água. Há de existir nessa cidade um homem que ainda pense em construir um pequeno trapiche nos fundos de casa, só pela poesia da obra.

Rio da minha infância. Quantas águas já rolaram. E eu que sonhava em ser como naquelas lendas indígenas, transformado em uma árvore a passar o resto dos dias debruçado sobre tuas águas. E conversaríamos pela tarde a fora. Eu olhando a vida passar no espelho de tuas águas serenas.

0 Replies to “Nas águas de um rio”

  1. O homem e o rio, o rio-homem, feitos do mesmo material.

    Só lamento, meu caro Felipe é o que vc escreveu, de que o homem conhece os caprichos das mulheres com o passar dos tempos, pois eu digo que homem nenhum entenderá as mulheres, mesmo que os anos voem que nem mariposas alvoroçadas rodando as lâmpadas de brilhos turvos das aléias do Itamirim

  2. andré pinheiro

    muito bom.
    belíssimo texto,
    que traz-transborda
    em seu leito
    o rio,
    do qual todos nós
    somos feitos.

    “rio da minha infância” – genial.

    um abraço.

  3. Poesia fluvial!!!!

  4. Acredito que o Tietê, o Tamanduateí, o Aricanduva, o Pinheiros e muitos outros rios e córregos (e afins) ignorados pela Humanidade se sentem lisonjeados pelo texto magistral que evoca suas glórias. Parabéns.

  5. O Capibaribe e o Beberibe se sentem orgulhosos desse paranaense-itajaiense, que fala desse insesto rio-homem, assim como Jão Cabral de Melo Neto fez pros dois; senão para um apenas, o que valeu pra todos.

  6. felipedamo

    os rios também têm vontades, oras…

  7. Salviano

    Olá Felipe, estou postando esse comentário, pois gostaria de receber um contato seu, pois sou estudante de teatro e tenho interesse em discutir com você questões sobre sua autoria desse texto.

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