O passado, as bactérias e o cheiro de terra molhada

Ando meio saudosista e logo algum amigo sairá a dizer que estou meio bocó. Mas é que o passado teima em visitar meus dias e traz lembranças tão boas como o cheiro da terra molhada.

A terra molhada, aliás, é um prato cheio para poetas de primeira viagem. Escrever sobre a terra molhada é falar de algo que todo mundo gosta, e logo, difícil de ser contrariado.

Passei boa parte dos meus anos pensando na terra molhada, no cheiro gostoso que principia a chuvarada, assim que as primeiras gotas caem no chão. Acho que foi na sétima série do ginásio – quando ainda chamavam assim e eu devia ser apenas um pouco mais velho que meu filho – que perguntei a um professor de biologia o que era o cheiro da chuva. A pergunta saiu assim, meio filosófica, sem muita elaboração discursiva. O que eu-menino queria saber era de onde vinha aquele cheiro, se era algum elemento químico – imaginava os átomos de oxigênio abandonando o hidrogênio, se misturando com metais da terra em uma alquimia natural, que acabava originando aquele perfume sem comparação – ou alguma outra anomalia atmosférica.

O professor acabou não respondendo. Enrolou a turma de alguma maneira e o cheiro da chuva, ou da terra molhada, como preferem os poetas, continuou sendo um mistério pra minha meninice. Cheguei a gastar um verão debruçado sobre os volumes de capa cor de vinho da Enciclopédia Barsa procurando saber sobre aquele cheiro, mas tudo resultou infrutífero e incapaz de responder minhas indagações.

Mas temos o dom de esquecer das coisas. E se nos descuidamos disso o tempo dá um jeito de apagar as lembranças. E se as tardes não as apagam, elas acabam ocultas no meio de tanta notícia que ninguém lê.

Assim esqueci da chuva, do cheiro, da aula de biologia. Até que um dia, no labirinto da memória, os elementos se reorganizaram feito tempestade e vieram relampear de novo na minha cabeça.

Comentei o assunto com um amigo que estava na frente do computador preocupado com números, pesquisas e dados. Em dez ou onze segundos ele me falou: Streptomyces.

Depois de um tímido “O que?” ele comentou: “são bactérias Streptomyce. Elas ficam no chão, adormecidas, e quando a chuva cai elas lançam seus esporões minúsculos no ar. É o cheiro da chuva”, falou apontando a explicação na tela do computador. Pobre Barsa, pensei. Os tempos são outros.

E no meio de uma tarde de céu parcialmente nublado, sem ocorrência de pancadas de chuva, descobri mais uma sutileza do mundo, um desses segredos que a natureza esconde da gente, só por charme, e que por anos me fez imaginar um sem-número de coisas enquanto olhava a chuva cair no quintal, sobre os pés de morango de nossa horta, oásis esverdeado da minha vida.

0 Replies to “O passado, as bactérias e o cheiro de terra molhada”

  1. Quanto mais me escondo do passado, mais alguém resolve remover esse monturo de terra quardada a sete chaves no centro da minha memória.

  2. 58938472

    Bocó!

  3. Como a própria palavra significa lugar onde se guarda lixo, eu fui obrigado a chafurdar a minha memória e encontrar coisas que não me diz absolutamente nada mais, a não ser uma coisa que era quando a éguas e a vacas, enquanto ruminavam, expeliam através de suas grandes xoxotas enxurradas de urina, no solo árido do cercado daquele sertão medonho de se viver. No ar, apenas o odor da triste e latente miséria, obra viva de uma elite feita do mais puro esterco e que ainda pulula os blogs e discussões da vida.

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