Cartas Porteñas III – Um empréstimo incomum

Faço o contorno na Plaza de Mayo e avisto uma manifestação em frente ao palácio. Comento em português sobre a luta sindical e é a senha para o taxista perceber que somos brasileiros e começar a prática de um dos esportes preferidos dos argentinos, a política.

Reclama do governo, diz que a presidenta Cristina abandonou o campo, que já fora orgulho da nação argentina, rompendo com uma base social importante. Diz que a Argentina não tem mais nada, perdeu tudo para o Brasil. Nosso país passou na frente dos hermanos na produção de carne bovina, um mito platino, a Votorantim arrematou a maior companhia argentina de cimento, a Petrobrás é líder no país na exploração e comercialização de derivados do petróleo e, para completar, a brasileira Ambev comprou a cervejaria Quilmes.

Já vou me encolhendo no banco diante de tanta reclamação, me sentindo um pouco que culpado pela desgraça vizinha, quando ele dá um tapa no volante e diz que ainda por cima temos Lula. Risos no banco traseiro. Ele diz que o barbudo não virou as costas para o país, que soube valorizar e proteger a produção nacional. Começou a citar números e fiquei na dúvida se aquilo era um taxista ou um professor de economia.

Ao fim pediu, sorrindo, se não emprestávamos o Lula. Eu comentei que faltava pouco para o fim do governo, quem sabe ele não passava uma temporada em terras argentinas. Mas em troco queríamos a Cristina – brinquei pra valorizar o produto dele. Com uma careta fez que não, disse que seria um mau negócio. Ele nem imaginava que dali a dois anos ela se reelegeria com a maior votação da história. Coisas da política.

Descemos em frente a uma sorveteria na Recoleta. Fiquei contente em debater política e não futebol. Senti ser preciso desmistificar algumas coisas e mostrar que o projeto latino-americano é um só. Tomando um sorvete de doce de leite, até concordei em emprestar o Lula, mas tinha que vir em troca a Cristina e mais o sorvete. Ou nada feito.

0 Replies to “Cartas Porteñas III – Um empréstimo incomum”

  1. “Ainda falando de política, achei super engraçado, o fato de um taxista me pedir emprestado Lula por dois anos – “Solamente por dos años!” – disse ele. Ele queria o nosso presidente torneiro mecânico para colocar as coisas nos eixos em seu país. O que mostra que Lula anda mesmo em alta, mundo afora.”

    Trecho extraído do blog O Cubancheiro no post “?Olá, que tal?” –
    quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 – por Hélio Jorge Cordeiro

    Será que tomamos o mesmo taxista, Damo?! Hahaha!

    abração
    Hélio

  2. felipedamo

    putz, fomos enganados…deve ser um ator contratado pelo Itamaraty…hehe

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