Cartas Porteñas V – Uma maldição secular

Certa vez o nobel mexicano Octavio Paz disse que  “ao assumir o poder, o revolucionário assume a injustiça do poder”, lembrando a intrinsecidade de certas condições. Ele está correto. Em nosso cotidiano, por mais que finjamos ou façamos de conta que elas não existem, as pequenas maldições se acumulam à nossa janela. Penso nisso enquanto caminho pela avenida Rivadavia.

Recordo a história da construção do Teatro Colón, a principal casa de ópera da Argentina e jóia estimada para os platinos. O Teatro foi inaugurado em 1908 após mais de 20 anos de tropeços em sua construção. O primeiro engenheiro responsável pela obra, o italiano Francesco Tamborini morreu subitamente durante a construção do Teatro, deixando os trabalhos ao encargo de seu pupilo, o também italiano Vittorio Meano, que assume a obra em meados de 1890. É aí que a pequena maldição da qual falamos coloca suas garrinhas de fora. Em junho de 1904, com as obras do prédio ainda incompletas, Meano chega em casa e surpreende sua esposa na cama com seu ex-mordomo. Uma briga acontece na sequência e Meano acaba sendo assassinado pelo mordomo. As obras param mais uma vez e um novo arquiteto é contratado, desta vez belga, que conclui o edifício.

Na Biblioteca Nacional, alguns quarteirões adiante, a história não é diferente. Em 1868 o poeta e escritor Jose Mármol assumiu a direção da casa. Um ano mais tarde teve que abandonar toda a atividade por conta de uma enfermidade que o deixa cego. Quinze anos mais tarde outro grande escritor argentino assume a Biblioteca, é Paul Groussac. Não demora muito e ele também começa a perder a visão lentamente, por conta de um glaucoma. Ao deixar a biblioteca, já está praticamente cego há anos. Para terminar a saga, o não menos reconhecido Jorge Luis Borges também passou pela direção da Biblioteca Nacional. Ele assume em 1955 e ali fica até 1973. Neste período, como era de se esperar, ele também fica completamente cego.

Os mais céticos logo aplicarão o carimbo da fatalidade a estes casos. Pode até ser. Mas parece existir um fio invisível unindo cada um deles. Uma maldição silenciosa ligando grandes nomes da cultura argentina com um fado triste e inevitável. Logo em um país onde a cultura é tão profícua. Lembro outra vez Octavio Paz. Talvez este seja o preço.

0 Replies to “Cartas Porteñas V – Uma maldição secular”

  1. Manuela

    Gostei.Não sabia dessa história. Há um lado da nossa vida que muitos deixam esquecido.Só acreditam no que veem ou tocam.Há muito mais além.Nossa capacidade limitada nunca nos permitirá compreender tudo ao nosso redor.Deus é o único soberano.

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