Cartas Porteñas VII – Empanadas norteñas

Quem vai a Buenos Aires pela primeira vez não pode se furtar de sentir o sabor único de um dos maiores tesouros nacionais: as empanadas. Encontrado em praticamente todo botequim da capital, o assado feito basicamente de massa recheada com carne é um verdadeiro símbolo do norte do país que se alastrou e hoje é uma insígnia de toda Argentina.

Saboreio uma delas em um café em frente ao Congresso Nacional, enquanto Juca pede uma Quilmes gelada e comenta sobre a educação dos locais. No balcão, uma variedade mais ampla de sabores, que vão desde frango até queijo cheddar com tomate seco, passando pelas opções vegetarianas, deixariam os mais ortodoxos defensores da exclusividade da carne bovina revoltados.

Nas proximidades da calle Chile, pelos labirintos de San Telmo, há outro espaço especializado no qual tropeço enquanto vou flanando durante uma tarde quente por entre antiquários e boutiques. Na vitrina centenas de empanadas observam os transeuntes que passam pela calçada rumo ao centro da cidade. Autênticas empanadas nortenhas, diz o letreiro sobre a porta envelhecida que range como um lamento injusto. Entro e experimento aquela que será a melhor empanada de minha vida.

Já me disseram que o Chile também se vangloria de suas empanadas, e admito que talvez deva até mesmo existir alguma rivalidade por conta disso. Mas as empanadas argentinas são uma verdadeira instituição, cujo tempero talvez possa ser tratado como patrimônio imaterial de um povo.

Vejo em meus pensamentos a mestiça que, em algum lugar da cordilheira, prepara a massa na frente do forno de barro, tempera a carne tenra, procura o tamanho certo aos bocados e depois dá forma às franjas das bordas do salgado. Enquanto como viajo pelo altiplano, passo voando pela quebrada de Humuauaca, avisto de longe os salares do norte do país, o ar rarefeito, a terra árida. Congelo meu pensamento no ponto circundado radialmente por um condor e então volto a San Telmo. Nenhuma cordilheira por perto.

Embrulho algumas empanadas em um saco de papel pardo. Saio pela rua em direção ao porto. Alguém ouve Fito Páez no rádio de um sobrado. E eu vou, ao lado do caminho, para mais uma tarde vagabunda nas ruas de Buenos Aires.

0 Replies to “Cartas Porteñas VII – Empanadas norteñas”

  1. O testemunho de Juca faz-me crer em tamanha ilusão, pois quando lá estive, em BA, não no Chile, degustei uma e tive a ilusão de que estava no Jabaquara,SP, nos idos de 68, comendo um “pastéo” num sábado de manhã na feira, enquanto aqueles zoinhos puxados me falava “Boon, né?!”

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