Cartas Porteñas VIII – O tango que nunca vi

Distraído e desviando da multidão que caminha qual máquina pelo calçadão da calle Florida acabo quase atropelando dois artistas de rua que dançam tango sob uma marquise. Detenho-me por alguns segundos interrompendo o fluxo e tentando entender alguma lógica nos passos que os dois dançarinos executam com precisão olímpica diante de meia dúzia de turistas e outros curiosos. Alguém na multidão reclama e sigo meu caminho, deixando pra trás algumas moedas e um pouco de arrependimento.

Os dançarinos de tango são uma espécie de paisagem urbana portenha. Em frente ao Caminito outros casais repetem o número com a mesma agitação, ávidos pelos dólares dos viajantes. Nos fundos do Tortoni há um pequeno espaço onde se pode dançar. Chego ao albergue e eis que também lá haverá aula de tango naquela noite. E há entre os hóspedes, inclusive, um frisson pela chegada das vinte horas, quando a professora de tango conduzirá os presentes aos seus primeiros passos na dança.

Nas vezes que estive na Argentina sempre evitei os shows de tango. Pareceram a mim sempre algo do tipo for export, e sempre me recusei a representar no país vizinho o papel que muitos gringos desempenham no Rio de Janeiro diante de passistas com roupas mínimas em espetáculos de samba artificiais. Fui convidado para alguns shows durante as vezes que estive na cidade. Janta e tango, miniaulas, milongas autênticas. Nada me pareceu confiável, mas talvez seja só implicância ou algum mecanismo de defesa.

Bebo uma cerveza no balcão enquanto os casais começam a trocar os primeiros passos com aquela hesitação e falta de equilíbrio de um filhote. No fundo estou me divertindo. Recuso o convite para participar da aula sob os protestos de minha mulher. Deixo para o dia seguinte. Mas o que poucos sabem é que o dia seguinte não existirá e sairei da Argentina sem aquele tango.

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  1. Apuñalado por el cuchillo de arrepentimiento, volvió a su casa los “pies rojos”.

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