Cartas Porteñas X – O espelho de Perón

Juan Domingo Perón é um fantasma de uma esfinge que se esconde pelas ruas de Buenos Aires. É um vulto espectral que vez ou outra aparece no canto de uma sala, por trás de um veículo ou à sombra de uma árvore. Não se fala de Perón na cidade. Mas ele povoa todas suas calçadas, do Ayuntamiento ao mercado de Abasto.

Como um parente enfermo que a família quer esquecer, se chega a seu nome apenas por metáforas e suposições. No meio de uma conversa despretensiosa se fala de outro tempo e quando se vê, se fala de Perón. O assunto pode ser futebol, televisão ou economia. Sempre, sobre os argumentos, paira seu fantasma.

Ninguém o defende, mas ele continua ali esperando ser decifrado. No meio do caminho entre o nada e o paraíso. Perón é uma peça chave sem a qual parece que ninguém conseguirá chegar onde quer. Condição indispensável para ser argentino.

Não há consenso sobre quem foi o general, se foi conservador ou liberal; se afagou a esquerda ou serviu à direita; se foi um governante justo e bom ou um déspota tirano e manipulador. Amado e odiado, Perón segue pelo caminho do meio. Não era Boca, tampouco River. Torcia pelo Racing. A quem teria amado mais: a popular Evita ou a impopular Isabelita? Não se há de saber…

As perguntas vão se acomodando ao longo de quase um século e as indecisões de um personagem se transformam na indecisão que é ser argentino. Entre a Latinoamérica e a Europa, entre Buenos Aires e a cordilheira, um povo mestiço, gaúcho e incerto. Na vitrine de um escritório da calle Corrientes o fantasma do general contempla seu reflexo idêntico: ele se chama pátria argentina. 

0 Replies to “Cartas Porteñas X – O espelho de Perón”

  1. Damo, esta é de certo modo, uma ode a Juan Domingo Peron, que, como disseste, a sombra ainda ronda o inconsciente do povo argentino, assim como o teu e o meu também.

  2. Aliás e em tempo, existem mais dois fantamas que rodam o inconsciente dos hermanos que são, claro Eva e Gardel. Este último também assombra os nossos irmãos uruguaios, pois juram de pés juntos que Carlito nasceu em Montevideu. Durma-se com um barulho desse!

  3. Não resisti, amigo, mas cá em pindorama, nós temos os nossos fantamas; Barbosa (50!), o Velho Caudilho e a eterna (!) Carmem! Fantasminhas, diriam los hermanos! rs

  4. Carlito nasceu em Tacuarembó, no interior do Uruguai…estive lá e posso provar…já o Barbosa, prefiro o da TV Pirata…

  5. Hahaha! Então tens “prueva” ? Barbooooooooosa! Em verdade eu vos digo, que o tadinho do Barbosa nada teve com a nossa derrota em 50. O problema é que era negro e ainda por cima como disse muito bem Galeano “O goleiro sempre tem a culpa. E se não tem paga do mesmo jeito” (Futebol ao sol e à sombra, L&PM/pg 12). Agora, o nosso fatasmita mesmo foi o Gigia!

  6. Damo, só para esclarecer os frenquentadores do seu blog, o Gigia que me refiro num purtuguês “castiçal”, trata-se de Alcides Ghiaggia.

  7. Puts! Ghiggia! Ah, deixa pra lá!

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