Cartas Patagônicas II – Quando os demônios bailam no deserto

A aurora começa a despontar no tênue horizonte quando atravessamos o rio Colorado e entramos na Patagônia. O ônibus segue rápido pela estrada retilínea e concordamos que o malbec servido na noite anterior foi providencial ao preparar o corpo para as vinte e quatro horas que nos separam de nosso primeiro destino.

Aos poucos a estrada começa a descrever pequenas curvas e percebemos que já estamos no vale do Rio Negro. Plantações de frutas se debruçam sobre a estrada até onde a vista alcança, trabalhadores ajeitam a carga em seus caminhões, e o céu vai ficando com um azul mais nítido sobre o bordado que as colinas fazem no final da ruta, em uma das mais belas paisagens da Argentina.

Salpicado de pequenas cidades o vale vai subindo até chegar a Neuquén, o grande centro petrolífero e regional deste pedaço de mundo. Tomamos o desjejum na cidade, que conta com um museu de pré-história renomado e também carrega a responsabilidade de ter apresentado ao mundo Carlos Menem, o polêmico e entreguista ex-presidente argentino.

De Neuquén adiante a paisagem muda bruscamente. O verde é interrompido pelo intenso amarelo das areias do deserto. Lá embaixo o rio faz suas curvas, com águas de um azul leitoso que acredito encontrar apenas aqui ao sopé dos Andes.

Um ou outro pinus aparece no meio da vegetação rala e baixa, e de quando em quando é possível avistar alguém em uma cabana ao longe, mostrando que até aqui, no meio do nada, algum homem sonha, trabalha e produz.

Nas ravinas alguém aponta o primeiro redemoinho. Huracán, diz uma senhorinha. E conforme o ônibus avança sobre as curvas do deserto, os pequenos furacões vão se colocando em fila, às dezenas. Lembro o livro de estreia de Gabriel García Márquez, A folharada, onde ele fala da crença latino americana de que demônios habitariam os redemoinhos de folhas secas.

Tento contar quantos deles estão lá fora, mas logo desisto: a legião é numerosa. Parece que os espíritos maus foram todos banidos para este deserto onde devem estar tentando algum outro pobre diabo, como eu, ou como a senhora que vai ao meu lado, ou o casal dos últimos bancos. Cada qual com seus assombros interiores.

Lá fora, os pequenos furacões dançam seu estranho número, desaparecendo aqui para, subitamente, reaparecer acolá. E nesse bailado infernal, o demônio, astuto, enche de beleza a vastidão fria e monótona do deserto.

0 Replies to “Cartas Patagônicas II – Quando os demônios bailam no deserto”

  1. Alguns demônios, como bons arraigados moradores do deserto, ficam por lá. Mas tem uns que se arvoram e vão pra Bueno Aires atazanar na Casa Rosada! Vôte, credo em cruz, mangalô cem vezes! Vai de retro satanás!

  2. felipedamo

    De diabo tu entende, né? hehe

    1. Hehehe! Logo serei um especialista também em Malvadeza. Aguarde!

      PS: Sei, sei, ACM era um que conhecia muito bem malvadeza, mas a minha é mais justa que a dele! Tchan, tcha, tchan!

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