Cartas Patagônicas III – De Bariloche a El Bolsón

São seis e meia da manhã quando chegamos à rodoviária improvisada em uma calçada de San Carlos de Bariloche, de onde deve sair em breve o próximo ônibus para o sul da Patagônia. Daqui pra frente serão dois dias de estrada, passando por três províncias distribuídas pela imensidão da árida estepe austral.

É verão e conforme nos deslocamos para sul os dias vão se alongando cada vez mais e nascendo ainda mais cedo. Com o sol já alto no céu olho ao longe o cerro Tronador e seguindo as cinzas do vulcão que ultimamente tem assombrado a cidade repouso meu olhar sobre um canto do lago onde deve estar Villa La Angostura, um lugar com nome de bitter.

O vilarejo, assim como Bariloche, fica entre a cordilheira e um maciço auxiliar, que corre paralelo aos Andes e forma um vale verdejante e bonito onde as precipitações pluviométricas e a umidade são contidas. Este vale é salpicado de pequenos e grandes lagos, que permitiram o povoamento dessa área entre o deserto e a cordilheira, e há até mesmo uma lenda de que Adolf Hitler teria escapado da morte ao final da guerra e sido clandestinamente transportado até La Angostura, em uma intrincada conspiração entre fiéis seguidores e líderes de potências aliadas. Ali o führer teria vivido até o final de sua vida, comendo llao llao, recluso e escondido da história. Teria casado, tido duas filhas, mas não se sabe dizer se teria sido feliz.

Mais ao sul de Bariloche, antes de descermos para a estepe e entrarmos em Chubut, algumas cidadezinhas se distribuem no vale entre lagos cinematográficos. Uma delas é El Bolsón, reduto de hippies e artesãos que há algumas décadas chegaram ao vale e acabaram construindo uma próspera comunidade alternativa no local. Entre as curvas da estrada e as belas paisagens de altitude, há sempre um camping à sombra de árvores gigantescas e com gramados bem cuidados, onde aqueles que buscam um estilo de vida um pouco diferente do atual ainda encontram um último refúgio. Com muitos colonizadores alemães, El Bolsón também é conhecida pelos seus doces de frutas silvestres e por sua cerveja artesanal, produzida com lúpulo cultivado aqui mesmo no vale.

Parecendo um pedaço da Alemanha encravado nos Andes, esse imenso trecho entre La Angostura e El Bolsón já passa, de fato, a ser um destino um tanto aceitável para o ex-chanceler alemão. Penso até que meus antepassados alemães poderiam ter vindo parar aqui por algum descuido da imigração da época. Nessa Alemanha escondida nos confins da Argentina, mas com o charme alpino mantido.

Antes de o ônibus arrancar da parada de El Bolsón e deixar de vez a província, olho mais uma vez entre os montes e sentencio calado que, entre o amargor de uma angostura e a espuma de uma cerveja pilsen, será El Bolsón que levarei no meu coração germânico.

0 Replies to “Cartas Patagônicas III – De Bariloche a El Bolsón”

  1. Hélio Jorge Cordeiro

    Heil, mein lieber freund! Estou em terras konderianas por uns 15 dias. Vamos às pilsens?

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