Cartas Patagônicas V – Um condor dá boas vindas

Certa vez, quando era criança, fiquei até tarde assistindo um programa de reportagens na televisão para ver uma equipe de jornalistas brasileiros que tentava alcançar o cume do Aconcágua.

Lutando contra o sono, sofri quando ao final do programa a equipe anunciou que devido ao mau tempo não seria daquela vez que eles atingiriam o topo da América. Recordo pouco da matéria, além deste meu desapontamento, mas lembro que, ao menos, eles tinham filmado, ao longe, nas alturas, o voo de um condor.

Aquilo já serviu para aguçar a minha curiosidade de menino e pra mim valeu a matéria. Da primeira vez que cruzei os Andes, muitos anos depois, vasculhei o céu atrás de uma dessas aves, mas não obtive êxito. Voltei pra casa achando que havia faltado algo na viagem.

Desta vez, já em El Calafate, a cidade das estâncias dos fazendeiros ricos argentinos, no caminho para o glaciar Perito Moreno, eis que esse encontro por vezes adiado deixou para acontecer. Sobre uma formação rochosa amarelada à beira da rodovia aparecem os primeiros condores encastelados nas fendas das rochas. Meia hora mais tarde, já de frente para a geleira imensa, avisto outro condor fazendo suas acrobacias no céu azulado e frio. Devo ter perdido alguns minutos olhando incrédulo para aquela cena e pagaria uma boa soma para ver minha expressão naquele momento.

O flagrante, fotografado na distância que a parca objetiva alcançava, ficou congelado na minha mente pelo resto do dia. Saindo dali almoçamos em um restaurante da rua principal, tomamos sorvete de calafate e ainda experimentamos a geleia da frutinha símbolo da região. Depois passeamos pelas ruas da cidade, que parece uma mistura de Gramado com esses vilarejos vitorianos ingleses, e visitamos umas três feirinhas de artesanato. Ao final do dia subimos as escadarias do parque municipal e chegamos à pista do antigo aeroporto da cidade, hoje transformada em rua, onde estava nosso hotel. E o condor não saía de minha cabeça.

Antes de entrar no saguão e me proteger do vento feroz dei mais uma olhada para o céu na esperança de encontrar por ali mais uma dessas aves gigantescas, mas nada. O condor ficaria apenas em minha memória, belo, imponente e por um tempo que talvez dure para sempre.

2 Replies to “Cartas Patagônicas V – Um condor dá boas vindas”

  1. Hélio Jorge Cordeiro

    Pois, é, cada um com o seu condor. O meu, por exemplo, tratava-se do da vinheta de apresentação da Condor Filmes, cujo voo, virou símbolo de interação entre o filme e o público infanto-juvenil, que se deliciava ao promover um chiado barulhento para fazê-lo voar do cume da montanha. Num é que todas essas vêzes o danado voava assustado! rsrsrs

  2. felipedamo

    é…o condor é sempre um campo amplo de possibilidades

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