Cartas Patagônicas VII – Red ale no fim do mundo

Já tive muitos amigos que caíram na tentação de fabricar sua própria cerveja e é exatamente deles que lembro quando tomo o primeiro gole da cerveja Beagle, fabricada de maneira artesanal em algum canto escondido de Ushuaia.

Seria inocência demais pensar que o homem, no alto de sua engenhosidade secular, ao chegar aqui nesse fim de mundo, fazendo sapato, camisa, formão e arado, não deixaria de pensar em uma maneira de fabricar a sua própria cerveja. Talvez possa ter sido o tempo de espera nas docas pelo próximo carregamento vindo de vapor ou até mesmo a curiosidade sobre a fermentação em terras tão ao sul do globo. Possivelmente fruto de algum desafio ou aposta no canto de um balcão de bar ou, quem sabe, até um acidente. Mas o fato é que aqui, nessa distância tão grande de tudo, também se faz cerveja.

Acomodado em uma mesa no Almacen Ramos Generales, de frente para o canal, olho curioso cada item dos armarinhos desse bar que flerta graciosamente com a possibilidade de ser um antiquário. Entre quinquilharias e trajes de época elegantemente expostos prendo a atenção sobre uma saca de café brasileiro que deve ter feito um caminho parecido com o meu para chegar até aqui.

A cerveja logo desembarca em minha mesa em uma garrafinha pequena, acompanhada de uma torta salgada que acabará me servindo como almoço. Despejo a red ale no copo de cristal-polido-com-uma-precisão-germânica enquanto aprecio a espuma fina do colarinho. Bebo com calma perdendo meu tempo ao olhar a fauna das mesas ao redor.

Gole após gole vou apreciando uma cerveja que, possivelmente, não voltarei a beber. Mas como a gente lembra de tudo aquilo que foge da rotina e se torna extraordinário, se por um lado não voltarei a beber desta cerveja, por outro lado não esquecerei dela, que ocupará um compartimento especial em minha memória, mais precisamente no dia trinta de dezembro de dois mil e onze. Não penso em voltar a Ushuaia.

E talvez por isso, tudo fique mais bonito nessa manhã fria de um verão estranho.

3 Replies to “Cartas Patagônicas VII – Red ale no fim do mundo”

  1. Hélio Jorge Cordeiro

    Deveria ter uma lei que obrigasse a todos os cidadãos a produrizerem a sua própria cerveja. O governo poderia até financiar parte do material para sua produção.
    Eu mesmo teria como não mais sair de casa, mesmo tendo que ser escurraçado pela vassoura da minha mulher, na maioria das vezes e indo me juntar a Jânio, meu cachorro, no canto do terraço todas às noites, depois de consumir toda a produção diária de meu velho e bom red ale caseiro. hic!

  2. felipedamo

    vem aí o Bolsa Cerveja

  3. Leandro Hahn

    Lindo texto, cheguei a sentir o gosto da Red Ale. Sugestão de consumo: Eisenbahn Strong Golden Ale.

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