Cartas Patagônicas IX – Um relógio no canal de Beagle

Alguns homens vão muito longe por causa de uma promessa. Talvez eu seja um deles. Ou talvez eu seja apenas um tolo. Chego ao final de minha viagem, ao fim de todas as estradas, ao ocaso dos meus caminhos, por uma promessa que deixei de fazer, mas deveria ter feito.

Cresci ouvindo meu velho falar de suas viagens e herdei dele essa vocação para o caminhar. Recordo minhas lembranças de meninice, dele falando da Terra do Fogo, essa última fronteira, a viagem que faríamos juntos um dia. Viagem que nunca fizemos, entre as nossas muitas. Viagem que tive que fazer sem ele.

Já se vão tantos anos sem meu pai que até parei de contar. E agora estou em Ushuaia para cumprir uma promessa que acabei fazendo postumamente para mim mesmo. Ou para o resto de lembrança dele que ainda me habita.

Disposto a fazer milhares de quilômetros até o fim do mundo para ali fazer repousar a última parte de meu pai que ficou comigo. Um velho relógio dourado que ele usava e que minha mãe achou por bem deixar sob minha guarda. Único espólio que coube a mim, além das lembranças e orações dos dias seguintes à sua morte. Com o relógio no pulso fiz o caminho que deveria ter feito com meu velho até Ushuaia. Contei cada uma das horas até aqui naqueles ponteiros opacos e envelhecidos.

Já a bordo do barco que nos levará para aquele que será o lugar mais ao sul que talvez eu consiga chegar, um guia fala sobre os cuidados com o meio ambiente e as proibições de jogar lixo nas águas do canal. Hesito. Penso nos milhares de quilômetros. Penso nesses dias todos desde que ele me deixou sozinho. Largo de lado o discurso ambientalista. Decido ir em frente. Há momentos em que a vida de um homem vale mais que a vida do mundo.

Meu silêncio contrasta com a balbúrdia dos turistas que olham para estibordo, onde uma colônia de lobos marinhos se espreguiça nas pedras, chamando a atenção de todos. Vou para o outro lado do barco disposto a por um fim na história que eu, sozinho, devo encerrar.

Olho para os lados e não vejo ninguém. Penso em jogar o relógio para longe, seria mais poético. Mas ao invés disso deixo que ele apenas escape de minha mão para o fundo do canal. Não faz um ruído, um nada. Só mergulha reto para a profundeza que talvez seja eterna. Em pouco menos de um metro perco seu brilho de vista na turbidez dessa água gélida. É tão rápido e tão definitivo que fico até pasmo com a minha incapacidade de conviver com aquilo que se vai para sempre. Uma mistura de medo, alívio e arrependimento.

Desfeito do relógio, último vínculo material com o velho, agora nos unem apenas as lembranças e aquilo que é etéreo. E hoje guardo um segredo qual um crime: nas águas do canal de Beagle descansa o que restou de meu pai.

One Reply to “Cartas Patagônicas IX – Um relógio no canal de Beagle”

  1. Hélio Jorge Cordeiro

    Acho que é por isso que existem canais que, de algum modo, nos une a todos para um só propósito. Quiçá alguém um tempo depois vá encontrar essa ligação material entre seu velho e você, no Nepal, por exemplo. E nesse momento, não só você, como seu pai e quem encontrou tal ligação, se juntarão para complementrar o etéreo. este sim é imutável.

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