Cartas da Cordilheira II – Da serra aos Andes

Os ponteiros já deviam estar marcando seis horas da manhã e o dia começava a se descortinar lentamente lá fora quando percebemos que por algum erro de rota nosso ônibus se desviou do caminho e fomos parar às portas de Córdoba, já em cima da serra.

Sentados em uma lanchonete de um posto de gasolina em uma pequena cidade do subúrbio serrano, contamos os poucos pesos que havíamos trocado para a travessia do país. Fui até o caixa e logo fiquei sabendo que cartões de crédito não eram aceitos e que dificilmente acharíamos algum lugar que os aceitasse pelo caminho. O país mal acabara de sair de uma crise econômica de tamanho monumental que havia deixado os argentinos, de fato, sem crédito no mercado milionário dos cartões plásticos.

Revirei os bolsos atrás de alguma moeda que pudesse ser usada, mas nada. Acabei aceitando alguns trocados emprestados de alguém que viajava alguns bancos atrás, com a promessa de trocar meus dólares mais adiante e devolver a quantia antes de chegarmos a Mendoza, no final do dia. No posto tomei um refrigerante de pomelo rosado e comi um sanduíche quente com pressa. A notícia inesperada da passagem por Córdoba deixou todos curiosos e logo, após uma conversa improvisada, os motoristas aceitaram que o ônibus cruzasse a cidade para que ao menos pudéssemos conhece-la. Serpenteando pelas ruas do centro da capital universitária da Argentina, conhecemos uma Córdoba que amanhecia em um dia frio de inverno, meio tímida e sonolenta.

Após contornar um de seus parques seguimos de volta à estrada que nos levou serra abaixo até a verdejante Rio Cuarto e depois pelo longo deserto de San Luís. Na estrada uma manifestação de trabalhadores rurais fazia um piquete, fechando uma pista com pneus de caminhão em chamas. Meia hora mais tarde com o trânsito já liberado anoitecemos entrando na província de Mendoza. Os olhos de todos buscavam no horizonte uma pontinha dos Andes desde então.

Jantamos matambre recheado com cebolas conservadas no vinagre de uva em um restaurante de Mendoza e pude finalmente trocar alguns dólares e pagar meu empréstimo. Era noite escura e não deu pra ver muito da cidade. De qualquer maneira, o vinho logo chegou à cabeça e adormecemos nas curvas entre Mendoza e a cordilheira.

Quando acordei no meio da madrugada o ônibus já estava estacionado na entrada do túnel que une a Argentina ao Chile. Olhei pra fora só vi uma imensidão de neve por todo lado. Desembarquei e dei uma volta no estacionamento deserto, fui até um banheiro público sujo e abandonado e voltei logo para o calor do ônibus. Nenhuma alma se movia lá fora e as montanhas eram apenas uma sombra esbranquiçada no meio da noite.

Adormeci imaginando em que altitude estaríamos e fazendo conjecturas sobre os efeitos do ar rarefeito em minha pressão arterial. Quando acordei de novo já estávamos fora da Argentina, do outro lado do túnel que cruza a cordilheira. Insignificante entre as montanhas gigantescas de um branco radiante e intenso. Havíamos cruzado os Andes e, uma vez atingido nosso primeiro objetivo, agora anulado, nossas atenções se voltavam para a visão do Oceano Pacífico. Pensei em Shopenhauer e seus ciclos de desejo e insatisfação.

Me convenci de que o ser humano é estranho mesmo, repleto de vazios e amplidão. Mas louco para enche-los de grandezas, que se substituem assim que atingidas, como as pilhas do meu walkman que, enquanto eu cruzava a cordilheira tocava alguma canção, que hoje nem ouso lembrar.

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