O cardume fantasma

– Chovia muito naquela época. Os cardumes já eram esperados há duas semanas. Sabe como é pescador. Inquieto. Ansioso. De qualquer forma todo mundo tinha família pra sustentar e nenhum mestre de barco conseguia segurar a tripulação naquela situação. Para alguns pareceu uma boa ideia sair para pescar logo que a tempestade amansou e o mar foi ficando assim, lisinho. Já de manhã uma meia dúzia pulou pro convés. Se dependesse deles, tocavam a embarcação pra fora da barra sem o mestre mesmo. Eles queriam pescar a qualquer custo.

Olhou para o copo, deu mais um gole curto e colocou em cima da mesa um velho relógio que trazia no bolso da calça.

– É melhor que o relógio dele fique contigo. Teu avô ia gostar que fosse assim. Ele não queria ir. Não queria, não. Tinha ouvido uma história de uma dessas bruxas que rondam às areias quando a lua já vai alta no céu. Uma pobre diaba, mas tinha a língua que era uma navalha. Ela falava e acontecia. Já tinha acertado umas três. Uma seguidinha da outra. Aí o povo começou a ficar com receio. Alguém tinha vindo avisar o mestre. Era melhor não sair naquela semana. O cardume fantasma tinha voltado. Ao menos era o que dizia a bruxa.

O menino arregalou os olhos. O velho continuou a história.

– A tripulação já tinha abastecido o barco, comprado a comida e – pra falar a verdade – tu sabes que quando pescador fica muito longe do mar começa a ter uma vertigem, um mal estranho. Então ele sabia que era difícil de conter os homens. Já estava todo mundo meio mareado ao contrário. Enjoado de terra. Mas ele passou uma tarde toda com um olhar perdido, como se estivesse fazendo as contas na cabeça, tentando não perder um número da contagem. O cardume fantasma era meio que uma lenda, meio que verdade. Naquela época se falava. Todo inverno, depois da lua cheia, ele aparecia pra afundar um barco. Era o sacrifício que os peixes pediam dos homens. O povo aqui da vila é supersticioso, cheio de mania feia. E depois a história vai correndo de boca em boca mais rápida que rastilho de pólvora. Diziam que era um cardume gigantesco e que deixava todos no convés com uma espécie de encantamento. E o barco ia atrás mesmo com o aviso do vento virando. Quando viam não dava mais pra voltar. A tripulação era levada direto para dentro da tempestade. E não sobrava ninguém pra contar a história. Como era longe, sempre a muitas milhas da costa, quem vai dizer que não era o tal cardume mesmo? A gente nunca vai saber. Mas a história corria a boca miúda. Ninguém falava disso muito, não. Era um tipo de assunto proibido. Pescador tem que ser machão, sabe como é, não dá pra ficar botando medo nos mais novos, porque se o sujeito tem medo de cardume, do mar vai ter o que? Até que um dia o padre tocou no tema no meio do sermão de domingo. Foi aquela confusão. Disse que era coisa que Deus mandava pra punir a ambição dos mestres de barco. Falou que as mulheres dos pescadores iam pouco na igreja, enquanto eles viviam nos inferninhos junto ao cais. Aí todo mundo viu que era coisa séria. Diferente da bruxa, o padre não falava por falar. E aconteceu do desgraçado morrer na semana seguinte. Aí a lenda só aumentou e então o assunto ficou autorizado nas rodas de café, nas mesas dos botecos. Não se falava em outra coisa. E logo começaram as teorias. Apareceram as primeiras testemunhas e em pouco tempo a história do cardume fantasma já dava pra encher as páginas de um livro.

O menino olhou para o relógio, enquanto a voz do velho parecia atender a uma cadência.

– Não faltou história de barco que disse ter avistado tal cardume. Uns não tinham ido atrás porque já vinham carregados, outros por medo, outros por proteção de Nossa Senhora dos Navegantes, diziam. Os peixes apareciam sempre perto da meia-noite, estranho né? Mas era o que se falava. Uma mancha rasa no mar. Havia um rapaz que dizia que primeiro achou que fosse um banco de areia, depois uma baleia gigante, mas era muito grande, era peixe que não se acabava mais. Tinha história até de quem havia lutado contra o cardume. Vai saber. Pescador fala cada coisa. E conforme a história crescia a bruxa colocava mais lenha na fogueira, dizia que o cardume só ia descansar quando afundasse o décimo-terceiro barco. Nessa altura já tinham ido doze pro fundo do mar. Tanta criança sem pai. Tanta mulher na praia com olhar perdido pro horizonte, esperando algum sinal, algum risquinho lá no fundo. E teu avô parece que sabia que ia ser o próximo, ou o último, pelas contas da velha.

Bateu duas vezes com o dedo indicador na mesa, como se marcasse uma totalização de conta.

– Aquele dia foi estranho, ele deixou comigo o relógio, queria me vender pra acertar umas contas. Disse que tinha comprado de um turco que viajava pelo interior fazendo mascate. Contou uma história que eu não lembro, mas parece que o relógio trazia sorte, ou azar, sei lá. Deixou ele aqui pela manhã e depois passou o dia por aí, como eu te disse, tropeçando em sombra. De noitinha eles saíram. E eu notei que ele não estava bem, não. Teu avô era muito respeitado, mestre dos bons, mas todo mundo viu que tinha algo errado. Naquele dia a velha não apareceu. Parece que a diaba sabia. E eles foram. O relógio ficou. Voltei pro bar o resolvi esvaziar uma garrafa sozinho pra ver se aquele sentimento ruim ia embora. Mas só piorava. E fiquei ali, bebendo e olhando pro relógio mexer seus ponteiros. Quando deu a meia-noite o relógio, como mágica, parou. E nunca mais voltou a funcionar. Ali eu soube. Tive certeza. O cardume fantasma e o barco de teu avô tinham se encontrado em algum lugar desse mar sem fim. A maldição tinha encerrado seu trabalho. Aquela madrugada foi estranha. Uma brisa morna e úmida vinha do rio, soprando até o cemitério, que ficava na saída da vila. Nunca tinha se visto nada igual. Os galos não cantaram na aurora e não se ouvia pio de passarinho. No outro dia nada do barco. Nem nos dias seguintes. Alguns homens saíram pra procurar o barco dele, mas nenhum sinal. Depois se fez um silêncio e o assunto morreu ali. O vilarejo entendeu que tinha pago sua parte no sacrifício e que agora o melhor era tocar adiante. Cada um ir cuidar de sua vida. A tua avó foi embora logo depois, levando com ela teu pai e teus tios, que ainda usavam calça curta. Ela não podia mais olhar pro mar, a pobrezinha. Era só tristeza. E eu fiquei com o relógio. Quebrado. Nesse tempo todo pensei numa teoria. Pode parecer loucura, mas acho que esse relógio contava as horas da vida de teu avô. Ele se foi, o relógio parou. Faz sentido, não faz? Pelo menos é uma explicação.

O velho pigarreou, como se preparasse a garganta para o desfecho da conversa.

– Mas era isso, essa era a história. Quer um conselho? Pega o relógio e vá embora dessa vila. Larga essa conversa de ser pescador como teu avô. Volta pra tua cidade e um dia conta essa história pros teus netos. Mas não fica aqui, não. Esse lugar é maldito.

O menino agradeceu. Colocou o relógio no bolso, arrumou a cadeira e saiu pela porta do bar enquanto o velho dava o último gole do copo.

Nem ele nem o menino sabiam, mas naquele instante, o relógio voltava a mover lentamente os seus ponteiros e – em alguma corrente do Atlântico Sul – um cardume fantasma começava a se formar à sua espera.

One Reply to “O cardume fantasma”

  1. E ainda fala que escrever dá preguiça. Magina se não desse! Muito bom texto, Damo. Gosto bastante de textos com histórias narradas.

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