Com carinho vamos tirar o jornalismo deste lixo onde ele se meteu

O jornalismo anda mal, é verdade. Basta ligar o televisor ou abrir as páginas de qualquer jornal para ver desfilar sob nossos olhos um mundo amargo, triste e violento. A imprensa brasileira anda muito azeda e há até quem ganhe dinheiro vendendo tanta tragédia.

O fato é que vivemos em uma era de superexposição, de superinformação, onde em qualquer buraco há uma máquina digital, uma câmera, alguém noticiando alguma coisa. Hoje é possível sustentar um canal de notícias durante 24 horas ininterruptas só com notícias ruins. Ou só com notícias boas. Ou só com notícias engraçadas. Notícia não falta.

Não tenho pesquisas em mãos, mas tenho a percepção de que nossos editores têm escolhido, na maioria das vezes, o enfoque negativo. Bad news are good news já diziam na faculdade. Não há problema algum em noticiarmos coisas ruins, afinal não vivemos no mundo de Pollyanna. O que incomoda é a desproporção entre a pauta negativa e a positiva. A julgar pelo conteúdo noticioso, diariamente morre mais gente do que nasce. E acontece muito mais desgraças que casos de sucesso. Ora, sabemos que a vida real não é assim. A imprensa pode até publicar o sinistro, mas não pode tornar isso tão desproporcional à realidade. O mundo não é tão terrível como a imprensa pinta.

O resultado prático disso? Talvez estejamos criando uma geração de crianças com medo, inseguras, oprimidas e sem perspectivas, sem a capacidade de sonhar, de ser carinhosos, de identificar a beleza nas coisas. Talvez tornaremos nossas crianças tão psicóticas e infelizes quanto boa parte dos norteamericanos, e saiamos por aí descarregando o fuzil para aplacar nosso medo desse mundo brutal que nos ameaça diariamente na tv, quando o volume alto não permite que ouçamos os passarinhos na árvore do quintal. É claro, isso será bom para a indústria da segurança, para as empresas que produzem armas, para os canais especializados em luta livre e para todos que vão ganhar mais dinheiro com esse clima brutal e violento.

Porém, esse quadro não é de hoje. O grande mestre Rubem Braga já escrevia, faz tempo, que os jornais “falsificam a imagem do mundo”, que preferem só a pauta negativa e que já “noticiaram tudo, tudo, menos, uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida”. Essa crônica chamada Os Jornais merecia ser lida e relida nos cursos de jornalismo, devia ser afixada nos murais das redações e ser rememorada a cada cerimônia de formatura de novos comunicadores. Sob pena de, sob o braço forte da indústria cultural negativista, nos tornarmos menos felizes, menos doces, menos humanos.

Novidades no ar

Precisamos mudar essa realidade, e não vai ser na pancada, até porque não é agredindo que se ensina a não agredir. Temos que ser promotores de um novo jornalismo, suave, elegante e livre dos medos. Já existem algumas iniciativas em curso. Na BandNews, Nelson Gomes apresenta um quadro chamado Boas Notícias, só com pauta positiva. Meu grande colega Fabrício Escandiuzzi resiste bravamente com sua “agência de boas notícias”, produzindo muito conteúdo que não vai acabar no aterro sanitário das notícias. Há quase uma década acompanho a inspiradora Rita Apoena publicar em seu Jornal de Pequenas Coisas as notícias que não saem na grande imprensa, mas que acontecem dentro de nossas casas, no chão da sala, entre nós e a tv.

Deve haver mais coisa parecida acontecendo por aí. Gente que quer fazer um jornalismo libertador, bonito e feliz. Jornalistas que sabem que nem tudo são rosas, mas querem dormir com um sorriso no rosto, e não com um copo d’água e um antidepressivo. Não é questão de ter mais humor, que muitas vezes é maldoso, mas de ter uma visão carinhosa da notícia.

Durante muito tempo as empresas jornalísticas, a academia e os poderosos da indústria cultural nos disseram o que era notícia, o que vendia, o que tinha relevância e notoriedade. Recentemente descobrimos que esta certeza é muito questionável. O espetáculo catastrófico anunciado para a Copa do Mundo, vaticinado pelas bolas de cristal das redações, não aconteceu. Além do descrédito na capacidade de leitura de cenários da imprensa, surgiu também uma aparente opção pela notícia boa.

A lógica é subvertida quando vai ao ar uma matéria sobre um rapaz que esmurrou o aparelho de tv durante a disputa de pênaltis, estraçalhando a tela e arrancando risos da situação. Em outro canal uma apresentadora entrevistou dois meninos que descem um morro do sítio da avó em um carrinho de lomba e viralizam o vídeo da aventura na rede mundial de computadores. Estes são só dois exemplos de assuntos banais, que jamais seriam notícia, mas graças à comunicação colaborativa e partilhada das redes sociais passam a gozar de tal caráter. É um novo tipo de comunicação que surge, abrindo caminho para uma pauta mais leve, mais positiva e saudável para nossos dias. Não vamos santificar a audiência e dizer que ela já é capaz sozinha de escolher o que quer assistir. Mas vamos admitir que talvez a maioria das pessoas não queira passar as tardes naquele masoquismo que é o noticiário policial.

Não é sobre gatinhos, é sobre uma nova postura que tire o jornalismo brasileiro desta situação melancólica, residual e esgotada.

A vida é bela. Vamos prosperar.

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