A lenda do Ribeirão da Caetana

[trecho de uma carta depositada no Arquivo Público Municipal, sob número 47-B/1913]

“Dizem os mais velhos que nos idos de 1880 restavam poucos índios botocudos nos sertões de Itajaí. Dentre eles um jovem chamado Jomoré que, já em idade de ser guerreiro, começou a se aventurar para fora dos limites seguros nas cercanias de sua tribo. Caçava pequenas cutias, capivaras e aves, além de pescar o que o rio oferecia e coletar frutos e tubérculos que brotavam da terra.

Foi quando perseguia uma caça que o jovem índio, já afastado demais da aldeia, chegou a uma pequena fonte escondida nos pés da morraria da cidade, onde parou para saciar sua sede. Ali, naquela tarde fresca de final de inverno, ele conheceu Clara, a moça branca de olhos cinzentos que buscava água na fontezinha afastada. Os dois se apaixonaram assim que um olhar pousou sobre o outro.

Daquele dia em diante, todas as tardes, eles se reuniam escondidos, sob a sombra de um majestoso guarapuvu que havia debruçado sobre o curso d’água. Sabiam, entretanto, que aquele amor não seria aceito, nem pelos colonos portugueses, tampouco pelos índios. Eram tempos difíceis, mas os jovens pareciam estar cegos para os perigos e conseqüências daquele ato sentimental.

Como que por um encanto ou maldição, no mês que se seguiu a esses encontros uma forte seca irrompeu sobre a roça dos índios, dizimando a plantação e espalhando a fome na aldeia. Os rituais de expiação foram iniciados pelo pajé quando, Tupã, o Deus-índio, decretou de maneira tenaz sua sentença: o motivo do flagelo era o amor dos dois jovens. O romance deveria terminar sob pena de a tribo definhar, assim como a terra, as plantas e tudo o mais ao redor.

Jomoré foi avisado, mas tendo por nutriz a ânsia desmedida típica dos primeiros amores, desobedeceu ao pajé e foi encontrar Clara, que já o esperava à sombra do guarapuvu. Aturdidos pela sentença mordaz, nem cogitaram a separação. Resolveram que melhor seria viver fugindo pelo continente, como os progenitores primordiais quando da expulsão do Éden. Escapando da ira de Tupã, cobertos de folhas, se esgueirando por entre a vegetação densa e intocada, os dois amantes seguiam disfarçados pelas sombras na mata. Porém, durante a travessia de um riacho em um descampado, o Deus-índio os encontrou e marcou ali a separação eterna dos amantes. Como castigo, Clara foi transformada por Tupã em uma nuvem, cinzenta como seus olhos. De Jomoré se fez uma serpente de fogo, para que jamais chegasse perto do céu e até mesmo evitasse as águas da chuva, vivendo a rastejar pela floresta.

Com o coração inundado de tristeza, Clara chorou uma noite inteira, fazendo descer das serras da cidade águas nunca vistas. Jomoré, agora cobra de fogo, na fuga das lágrimas de sua amada entocou-se no chão, rasgando a terra em fúria e desespero. Atravessou os subterrâneos da cidade até chegar ao rio, nas proximidades de um barracão onde vivia uma negra, de nome Caetana. Ali Jomoré encontrou as águas derradeiras e a morte, repousando seu corpo para todo o sempre nas profundezas imemoriais do rio Itajaí.

Na manhã seguinte, a negra Caetana acordou atônita diante de um novo ribeirão que havia surgido após a tempestade. O riozinho, cortando os pastos como uma artéria pulsante, era fruto da fúria de Jomoré e das lágrimas de Clara. Nascia assim o ribeirão da Caetana, como foi logo batizado pelo vilarejo.

Sobre Clara, nuvem escura, nada mais se soube. Mas dizem os antigos que ela ressurge, de quando em quando, a chorar suas lágrimas por sobre a cidade, eterna maldição de inúmeras enchentes que se precipitam sobre Itajaí”.

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