Um vulcão em Itajaí

Devia ser meados de oitenta. Eu morava ali no começo da Rua das Sete Casas, um desses lugares emblemáticos de uma Itajaí que já não existe mais. Era criança e tinha tempo para ficar olhando em volta por uma tarde toda sem remorso ou culpa.

Devia ser verão também. Ou algum período de estio prolongado. Um daqueles tempos que ressecavam toda a paisagem e que faziam com que qualquer fagulha cercasse de labaredas o cume do Morro da Cruz. E lá se iam os bombeiros, voluntários e curiosos a apagarem as chamas. E nós aqui embaixo. Torcendo para que o fogo fosse controlado e que o morro continuasse com sua silhueta de capoeira verde deitada como um gigante diante da cidade.

Naquele dia foi diferente. Não havia fogo. Apenas uma fumaça estranha. Não fui só eu quem reparou. Aos poucos o falatório foi se espalhando pela cidade. Não existia boteco em que não se falasse da fumaça misteriosa. Todos a olhar para o alto e elaborar teorias.

– Não se olha assim pra cima desde que o Zepelin passou pela cidade – dizia o velho Rosendo.

Não era um cometa, nem uma bola de fogo a nos varrer do planeta. Era um vulcão, vaticinavam. Itajaí tinha um vulcão adormecido que, ao que tudo indicava, estava acordando. E ficava logo atrás do Morro da Cruz, aquele morro mais alto e mais pontudo, com cara de mau e sem nome.

No dia seguinte um grupo de impávidos candidatos a heróis deu início à escalada por entre a vegetação fechada até atingir o topo do morro. No fim do dia voltaram pasmos. Nenhum fogo. Só uma fumaça estranha que, de quando em quando, saía de algum lugar do cume silencioso.

A essa altura já chamavam Itajaí e Navegantes de Herculano e Pompéia. O fim estava próximo. Entendidos opinavam. Professores eram consultados. Novenas rezadas pelas beatas da Matriz. Houve quem fez juras de amor, promessas apocalípticas que enfim seriam cumpridas. Especulavam por onde passaria o rastro da destruição, até que as lavas fumegantes encontrassem as águas do mar. Em tempos de guerra fria e ameaças atômicas, tínhamos algo muito mais devastador e letal. Nosso Vesúvio particular.

Depois de um dia todo discutindo como podia haver fumaça sem um incêndio aparente, calculando a altura e densidade da copa das árvores, os mais velhos da rua decretaram, para alegria das crianças, que era mesmo um vulcão.

Festa entre a criançada. Finalmente a cidade ia aparecer em rede nacional!

– Não brinquem com isso – já gritou alguém acabando com a euforia pueril. E lá fomos todos para nosso canto. Que graça havia em ter um vulcão se não podíamos sequer festejar a conquista? Logo nossa geração, que não tinha visto o tri no México!

E assim ficou por alguns dias. A cidade a olhar pro morro que aos poucos, de tanto expelir fumaça, foi se acalmando.  Até que numa manhã parou de fumegar. Não se sabe se foi pelas rezas dos crédulos ou pelas promessas dos incrédulos. Nosso vulcão se acabou igual naquele poema do T. S. Elliot, “não com um estrondo, mas com um gemido”.

No ano seguinte os adultos nem mais lembravam do ocorrido, voltando às suas contas a pagar, títulos protestados, malotes bancários e filas nos racionamentos da Era Sarney. Já as crianças foram mais generosas. O que não faltou foi homenagem. Nunca teve tanto vulcão de bicarbonato de sódio nas feiras de ciência de Itajaí.

 

 

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