O descaso de Itajaí com a Bernunça é um crime

 

Itajaí coleciona historicamente uma série de negligências incompreensíveis e injustificáveis. A cidade que durante décadas deu as costas para o rio e para a prática náutica ainda precisa corrigir a dívida histórica que tem com um dos personagens mais importantes da cultura catarinense. A Bernunça precisa sair dos folguedos de boi de mamão e tomar as ruas, reconhecida para sempre na cidade que a viu nascer.

Uma das últimas alegorias a serem incorporadas às brincadeiras do boi, a Bernunça é herdeira de uma longa tradição mundial que remonta aos dragões da Ásia Menor e do oriente. Recebeu influência dos monstrengos medievais que assustavam as crianças como o Krampus e o Pelznickel, chegando até o noroeste da península ibérica, onde se personificou nas figuras da Cucafera e da Coca Rabicha, trazida pelos portugueses ao Brasil como a Cuca.

Essa personagem alusiva ao bicho-papão, presente desde os primórdios das civilizações, aqui em Santa Catarina ressurgiu em forma de Bernunça, para continuar a linhagem mística de seres que sempre fascinaram o homem.

Diz Câmara Cascudo, talvez o maior antropólogo brasileiro, que o bicho foi introduzido em São José da Terra Firme, “por volta de 1923, por um preto de nome Felipe Roque de Almeida, trazida por ele dos sertões de Itajaí”.

Desde então a Bernunça tem lugar cativo na trupe do boi, sendo um dos personagens mais celebrados, principalmente pela criançada. Procriou, dando origem à Benuncinha, produto direto dos pequenos que são devorados ao logo de sua passagem. Seu nome já foi debatido academicamente em suas variações Abernúncia e Bernúncia, entre outras corruptelas. Vez ou outra a criatura volta ao tema de jornais e programas televisivos.

Entretanto, todo esse alvoroço não tem sido suficiente para a valorização do bicho em sua terra natal. Enquanto a Bernunça estampa garbosa a marca da Fundação Franklin Cascaes, órgão responsável pela cultura da capital catarinense, aqui em Itajaí continua a ser uma ilustre desconhecida. Nenhuma homenagem, nenhuma estátua, monumento ou referência. Itajaí renega a sua filha mais ilustre. Um crime contra a cultura e a memória de um povo.

Cabe a todos nós uma constatação: estamos a pouco mais de cinco anos das comemorações do centenário do monstrengo. Quantos séculos mais serão necessários para Itajaí acordar para sua grandeza interior e deixar de relegar suas riquezas?

 

 

One Reply to “O descaso de Itajaí com a Bernunça é um crime”

  1. Mas também é TRADICIONAL de Itajaí fazer isso, né? :-/

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